Thursday, March 30, 2006

Minha mãe bebe e perde os critérios...

Faz horas que não falo sobre minha mãe. É uma pena, principalmente pra ela, que o que tenho a contar não lhe seja muito favorável.

Meu pai é um figura muito conservador e nada festivo. Não tolera palavrões, mau comportamento das crianças, música alta, conversas esticadas no telefone, bebedeiras e nem chegar tarde em casa. Tirando o “chegar tarde em casa” e “música alta”, nada do resto eu pratico em casa. É certo que meus tragos deixam vestígios por horas depois que eu acordo, mas lá em casa não bebo um gole sequer. Deixo meus eventuais palavrões pra rua e, se possível, mantenho o bom comportamento.. hehehehe

Quem acaba sofrendo o pênalti é minha mãezinha. Dona de um vasto vocabulário chulo, uma queda significativa por umas geladas a qualquer hora do dia e que, se pudesse, vivia fazendo palhaçadas pra alegrar quem está por perto, tem que “se comportar” em casa. Mas ela é feliz, o que importa pra Dona Anair é ver a casa sempre em harmonia. Seu Antônio, por mais que tudo ande na boa, tá sempre reinando com alguma coisa. É só não ligar que ele logo se aquieta.

Já disse aqui que ele vai pra praia só depois que todos já foram e começa a bater a saudade. Pois é.. por conta disso minha mãe deita e rola lá na praia. Todos os dias do verão me ligava pra contar das suas peripécias. Das quais, uma delas me deixou consideravelmente chocado.

O sapo..

Nossa casa da praia fica a cinco quadras do mar. Há poucas casas construídas por perto. Alguns cômoros de areia e um que outro banhado de água da chuva, o que atrai bastante os sapos, que vivem invadindo a casa em busca de insetos.

Ainda era de manhã quando minha mãe e minha irmã foram no mercadinho buscar umas cervejas pra tomar durante o dia, coisa que não acontece aqui em Poa. Aqui, duas garrafas durante o almoço bastam, não importa quantas pessoas estejam à mesa. Assim passaram o dia. As crianças brincando nos cômoros de areia e elas se gelando e rindo. Almoço preparado regado a cerveja e, logo depois, uma soneca.

No final da tarde elas voltavam a dar início aos trabalhos, mais umas geladas, as crianças correndo e gritando nos cômoros.. todos felizes.

Minha mãe tem um sério problema de incontinência, tanto urinária quanto... deixa pra lá. Ainda era de tardezinha quando ela, já bem embalada pelas cervejas que tomavam, sentiu que pre-ci-as-va ir ao banheiro. Como os sinais eram adversos, resolveu que ia no dos fundos. Como além de adversos, os sinais eram de extrema urgência, resolveu dar a volta por fora da casa. Levantou-se de fininho e deu início à empreitada de chegar ilesa ao banheiro e, enfim, aliviar-se. Sentiu que uma forte pressão a forçava a não mais prender uma nádega junto à outra. Mas recém havia passado pela primeira janela. Ainda restavam duas.

Enquanto isso as crianças continuavam brincando e minhas irmãs bebendo e rindo, lá na frente. Na última curvinha que antecedia o banheiro, o inevitável... Minha pobre mãezinha não se conteve e.. como vou dizer? Isso mesmo que vocês estão pensando! Antes mesmo de entrar no banheiro, como todos estavam lá na frente, tirou as calças premiadas e largou no tanque. Terminou o serviço no vaso e tomou um banho. Ainda tonta, colocou uma roupa limpa e voltou lá pra frente com as gurias, que não desconfiaram de nada.

À noite minha sobrinha se preparava pra ir com as amigas pra boate, enquanto minha mãe, agora limpinha, e minhas irmãs lá.. se gelando e dando uma olhada na gurizada. Prepararam a janta, assistiram TV e foram dormir.

Já de manhã, minha sobrinha voltou pra casa, lavou o rosto e foi dormir, enquanto todos acordavam. Levantou-se um pouco antes do almoço, já reclamando:

- Que droga esses sapos! Tão por toda parte! – resmungava com voz sonolenta.
- O que foi, minha filha.. te incomodaram? – Consolou minha irmã.
- Ahhh.. cheguei e fui lavar o rosto ali no tanque. Tinham umas roupas da vó. Eu tirei pro lado e tinha um baita dum sapo! Eu joguei água nele, mas ele não quis sair.

Todos entreolharam-se. A essa hora o tanque já havia sido limpo, e o então sapo, retirado.

- TALIIIITHAAAAAA!!!! – gritou minha outra irmã.
- É.. eu jogava água nele e dizia: “Sai, sapo!” mas ele não saía. Aí lavei o rosto e fui dormir.

Acho que já estava na hora de o meu pai aparecer...

Monday, March 27, 2006

Ele sabia das coisas...

Certo que ele tinha engolido uma enciclopédia, o Maurício Kroef. Certo! Eu era estagiário numa empresa de relógios-ponto eletrônicos pra concluir o segundo grau. O Maurício fazia estágio de engenharia, pela UFRGS. Engenharia Elétrica na UFRGS, o curso mais temido entre os espinhentos estudantes de eletrônica e afins do segundo grau. E o Maurício já estava lá, com conhecomento profundo sobre todas as coisas que conversávamos, em meio aos testes nas plaquinhas dos relógios-ponto.

Tinha horas que eu parava tudo e pensava: o cara só pode estar de sacanagem! Ele deslanchava a falar sobre a invasão russa à Auschwitz, em 45, travando batalha com os alemães. E falava aquilo com uma riqueza de detalhes que impressionava. Em seguida passava a falar de algum esporte, lembrando o medalha de ouro no lançamento de dardos nas olimpíadas de 68. Eu tentava passar para algum esporte mais popular, como futebol, mas aí ele vinha com a escalação completa da seleção olímpica do mesmo ano.

E olha que ele não era nerd, ao menos não parecia. Vivia falando das boemias com os colegas da engenharia nos bares da Cidade Baixa e das aventuras amorosas que passava. Mulheres das mais interessantes que conhecia na noite e acabavam enroscadas nos lençóis do seu apartamento. Eu ouvia aquilo admirado, com as mãos no queixo. As histórias que ouvia dos guris do colégio não passavam de uns amassos nos corredores do Parobé.

Um dia Maurício chegou com uma questão intrigante: que quando o cara tá muito apertado, muito apertado mesmo, a sensação de alívio ao urinar chega a ser melhor que a do gozo. Não pode! - Eu pensava. Não lembro muito bem, mas se não me engano, na época eu ainda não tinha experimentado tal prazer, o de atingir o clímax do orgasmo com uma mulher. Quem me dera! Mas era, sem dúvida, o que eu mais anseava. Agora ficar apertado eu já tinha ficado um monte de vezes, e até sabia que a sensação era maravilhosamente boa. As últimas gotas até vinham acompanhadas de um “Ahhhhhhhh....” Mas aquilo não podia ser melhor do que gozar, não podia.

Anos depois, já tendo passado por algumas aventuras carnais, lembrei da questão do Maurício. Esperei até a primeira festa, onde seria mais provável eu ficar apertado. O problema era que eu nunca conseguia reunir as duas sensações na mesma noite. Uma porque eu não era louco de ficar apertado e não ir ao banheiro, caso tivesse um por perto. Outra porque não era toda hora que se conseguia ir pra cama com uma mulher. A dúvida foi tomando conta de tudo o que eu queria saber.

Finalmente chegou o dia. Estava numa festa ali na Cristóvão. Elektra, acho que era. Os espelhos dos banheiros eram vazados e podia se ver quem estava no espelho do outro lado, no feminino. Ali o pessoal trocava olhares e, se fosse de interesse mútuo, encontravam-se depois na pista. O problema é que o banheiro era sempre muito cheio. Na última vez que fui ao banheiro, já bem apertado por conta da cerveja que tomávamos no balcão, pintou um desses olhares com uma menina do outro lado.

Já de volta ao balcão, eu ficava tentando achá-la na pista. Ela estava perto da parede oposta, me olhando. Fui até lá. Mal nos cumprimentamos e logo nos beijamos. Foi um beijo longo, bom, daqueles de esquecer até a música que tá tocando. Quase não conversamos. A sintonia dos beijos e das carícias apontavam pra que buscássemos um lugar mais apropriado pra continuar a noite. Não precisei perguntar.. e ela também não respondeu, apenas sorriu...

Mas eu tava muito apertado de novo. Precisava ir pela última vez ao banheiro. Ela ia me esperar perto do caixa. Enquanto cruzava a pista a situação foi se tornando crítica ao ponto de eu achar que não seguraria até chegar ao banheiro. E se tivesse fila? Ah, eu faria no corredor mesmo. Engraçado é que quando o cérebro sabe que tu tá te dirigindo pra um banheiro, fica praticamente impossível segurar, como se o tempo limite fosse dado por uma ampulheta.

Consegui chegar ao banheiro, só um magrão na fila. Apura que eu tô apertado – falei. Ele foi rapidinho e saiu. Escorei a cabeça na parede, abri as calças e aaahhhhhhhhhh.... Quando a gente bebe, é mais legal fazer xixi assim, com a cabeça escorada na parede.

Só que não fez o barulhinho tradicional na água do vaso..

PQP!!! PQP!!! PQP!!! PQP!!!

Na hora senti um quentinho escorrendo pela perna esquerda. Olhei pra baixo e constatei que minha noite acabara de ir por água abaixo, ou melhor, perna abaixo. Uma imensa mancha escura contrastou com o claro do jeans. O que eu ia fazer? Como ia me apresentar à moça todo mijado? Não tinha como.. E pior.. se eu contasse o que tinha acontecido e ela não se importasse?

Não, não, não.. eu é que não ia passar por tamanho mico. Além de ter que sair do banheiro todo mijado e, inevitavelmente, ouvir piadinhas. Já abri a porta com cara de brabo. Ai que alguém se atrevesse a falar alguma coisa. Passei pela pista sério, firme, sentindo agora, que a calça estava gelada. Poucas situações são piores que essa. Na hora não conseguia lembrar de nenhuma outra.

A moça estava lá, perto do caixa. Me avistou de longe e percebeu que não estava indo ao encontro dela. Não sei o que pode ter pensado, mas fui direto pra saída. Não dei nem tchau, nem olhei. Saí e fui embora, adiando mais uma vez a comparação sugerida pelo sábio Maurício. Ele que nunca deve ter se mijado nas calças.

Thursday, March 23, 2006

Um dia especial pra um cara muito especial...

Décio tinha 8 anos quando teve o primeiro contato com um violão. Enquanto a maioria dos gurizinhos da sua idade esfolavam os joelhos jogando bola nas calçadas da Floresta ou na quadra da Florida, ele estava lá, isolado no seu quarto. Abraçado no seu violão e produzinho os primeiros acordes que o despertariam para um gosto ímpar pela música e o revelariam um talento sem igual.

Ao contrário da maioria do hobbys, Décio não abandonou jamais seu violão, e o gosto pela música e por fazer música só aumentou. Seu pai, o Seu Décio, que também era músico de talento, o alimentava com muito Beatles e tudo o que julgasse bom para lapidar os tímpanos debutantes do guri.

Quando eu o conheci, há uns 2 anos, ele já mostrava que tinha uma veia diferente pra coisa. E todos gostavam de ouvi-lo, fosse com a guitarra ou com o violão. Era ele chegar nos churras da galera e já ia um lá desligar o rádio e todos já se acomodavam à sua volta esperando o tom que ele ia dar. O legal de tudo é que ele nunca se mixava, a gente pedia e ele tocava. “Toca aquela, toca aquela outra..!” a gente pedia.

Durante esse tempo ele já passou por algumas bandas. Diz ele que nunca teve a pretensão de seguir uma carreira comercial, embora sempre que tocava o fazia com muita seriedade e dedicação, o que lhe rendia muitos aplausos e admiração. Assim ele nos cativou, e assim que ele sempre arrasta um de nós onde quer que vá tocar.

Ontem ele me ligou. Eu tava na frente do trampo do Pitoko, o esperando pra almoçar e ouvindo o Passado a Limpo, na Pop Rock. Aliás, um dos poucos programas que ainda dá pra se ouvir nessa rádio. Pois bem.. ele ligou..

- Ô cara, tudo bom?
- E aí locão, tudo bem!
- Ô cara, tu tá sentado? - daquele jeito bem pausado do Décio..
- Tô sim..
- Eu preciso te falar um negócio..
- Tá, fala!
- Ô cara.. o vice presidente do Inter... me convidou... (aqui eu pensei que o convite era pra assistir ao jogo nas cabines)
...pra tocar o hino do Inter e o hono do Rio Grande antes do jogo...


(instante de silêncio)

- PUUUUUUUUUTAAAAAQUEEEEOPARIIIIIIIIIIU BATMAN!
- Cara, não tô acreditando..
- Caraaaaaaalho cara, que afude!!! Como é que tu conseguiu isso?
- Um amigo meu blá blá blá conhece o vice presidente blá blá blá e eu to aindo hoje de tarde lá pra passar o som
- Bah, meu velho.. meus parabéns! blá blá blá..

O meu plano era de ir pra aula e pegar a chamada das 21:15. Só que, no meio da tarde ele me mandou uma msg dizendo que tocaria justamente às 21:15. Eu ia ser obrigado a gazear essa aula. Mas a das 19:30 não tinha como faltar. Entrei na aula e segurei até às oito e meia. Saí de fininho e me larguei voando pro Beira Rio. Tão logo entrei no estádio já ouvi um som de guitarra.

Era ele!

Subi alguns degraus na arquibancada e pude vê-lo. Ele tava ali na beira do gramado, ele e sua guitarra. Nos alto falantes de todo o estádio a melodia arrepiante do hino do Rio Grande. Era ele, era o Décio, diante de pelo menos 30 mil colorados, imprensa, funcionários e de todos que possuíam ouvidos. Ele caminhava leve no gramado enquanto tocava. Ao final do hino fez uma graça, deixando a guitarra no suporte e se abaixando pra fazer um solo de encerramento.

Quando terminou, o locutor do estádio anunciou:

- Agora Décio Jr. Vai tocar o hino do Sport Club Internacional!!!!

A galera já começou a vibrar. Ele tirou a camisa preta e revelou uma camiseta branca do Inter. Fez um sinal com os braços e levantou ainda mais a massa. E tocou o hino do Colorado. Eu arrepiei. Eu não conseguia acreditar que era ele, o Décio, que tava ali.

Fico imaginando o que representou esse momento pra ele. Com certeza nada paga. Um presente que ele e nós todos merecemos. Fiquei muito feliz por ele mesmo. O cara é o cara! Não conseguimos nos encontrar depois do jogo. Não vejo a hora de sentar com ele numa mesa de bar e saber, no tete a tete os pormenores de tudo.

Monday, March 20, 2006

A história de Júlio Caribe...

Júlio Caribe adorava dar uma volta de barco pelas águas da praia do Coqueirinho. Ele passava o dia todo na praia e, volta e meia, aceitava uma carona pra aventurar-se nas águas de Coqueirinho. Ia de uma ponta a outra, ria, passava por trás da Ilha do Padre e voltava. Geralmente dava mais umas voltas no mesmo barco nos dias seguintes e depois ficava um bom tempo na praia. Mesmo que os barcos que andasse ainda estivessem por ali. Mesmo que o passeio tivesse sido ótimo. Até que surgia um outro barquinho. Um novo barco enchia os olhos de Júlio e trazia as lembranças da face oculta da Ilha do Padre. E lá ia ele. Mais uns dias de aventuras e lá estava Júlio de volta à praia.

Não faltavam conselhos ao Júlio Caribe largar de vez aqueles barquinhos e se empenhar num projeto maior. Já que ele gostava tanto das maravilhas do mar, que desse jeito de navegar numa embarcação de maior porte. Aí sim sairia dos limites da quase que totalmente conhecida praia do Coqueirinho. Outros mares o esperavam. Quem sabe uma volta ao mundo.

Mas o Julio Caribe sabia que esses barcos grandes davam muito trabalho. Depois de estar em alto mar, teria que enfrentar a tempestade que surgisse. Isso o assustava muito. Mas a expectativa das maravilhas que viria a descobrir o faziam pensar com mais carinho no assunto.

Na verdade Júlio já havia navegado numa embarcação dessas. Ficou por um bom tempo no mar. Só que quando viu-se no limite entre perder-se no Atlântico e continuar sua vidinha na prainha, não quis arriscar. Passou um bom tempo até assimilar o arrependimento. E por um bom tempo nem quis mais saber das aventuras nos barquinhos, por mais charmosos e insinuantes que fossem.

Anos depois Júlio do Caribe voltou a se embrenhar nas curvas que costeavam a Ilha do Padre e andou em alguns barcos bem interessantes. Alguns deles até guardavam um projeto de se tornar barcos maiores, mas Júlio não queria mais passar por aquele momento de escolha novamente. Só iria se entregar ao oceano quando estivesse convicto desde o primeiro dia.

Então o Júlio Caribe observou um fato que o intrigou. Ele podia muito bem perambular pela orla de Coqueirinho, dar umas voltas nos barquinhos que havia por ali, até aí tudo bem. Mas caso ele avistasse um desses barcos maiores, empolgantes, que poderiam levá-lo a águas distantes, tudo complicava. Os pequenos barcos se colocavam à frente do Júlio Caribe e não o deixavam chegar perto da embarcação que lhe empolgara.

Numa bela noite na Praia do Coqueirinho teve uma festa entre os locais. Júlio foi molhar os pés na água e avistou, ante a luz que vinha da lua cheia no horizonte, a silhueta de um belo veleiro. Ficou encantado, deslumbrado, leve... Cada parte do barco que a luz revelava fazia os olhos de Júlio brilharem mais.

É esse, pensou!

Por dias Júlio do Caribe passou a admirar e se encantar mais e mais no belo veleiro e imaginar a longa, maravilhosa e empolgante viagem que faria nele.

Sem saber dos seus planos, Júlio pode chegar sem problemas ao veleiro. Chegou a dar umas voltas pela praia, porém, ainda não era hora de o barco partir. E ele teve que voltar à praia. Nos dias seguintes as manobras do veleiro produziam ondas que não deixavam Júlio se aproximar. E nos dias em que ele chegava, não partiam.

Foi aí que ficou evidente que Júlio Caribe queria algo mais que uma volta na praia ou pela Ilha do Padre. Ele queria ganhar o Oceano.

Foi aí que Júlio Caribe descobriu quão turbulentas podiam ficar as águas da Praia do Coqueirinho pela fúria de alguns pequenos barcos. Tentaram afogá-lo, tentaram puxá-lo pra cima de outros barcos, tentaram fazê-lo voltar à praia. E ele voltava. Assim foram os dias seguintes, as semanas seguintes...

Thursday, March 16, 2006

O boné amarelo...

Show é um negócio engraçado. Pensa só.. o Santana ontem, por exemplo. Analisando muito friamente, o que o cara faz, é mexer freneticamente os dedos da mão esquerda sobre as cordas de aço da guitarra enquando as vibra - com o auxílio de uma palheta – com a mão direita. Só!

É claro.. a combinação desses toques todos produz uma melodia intrigante de tão boa, que nenhum mortal como nós seria capaz de reproduzir. Muito menos, muito menos produzir. E o cara inventou aquilo! E toca do mesmo jeito, não erra nada, com a naturalidade de quem escova os dentes. O cara é o cara!

Mas aí eu penso.. por aqueles toques melodiosos dos dedos do Carlos Santana ele ganhou o mundo. Ele toca a guitarra, não canta, (tem um magrão que canta pra ele) e por esse seu trabalho, ganhou o mundo! Pessoas no mundo inteiro esperam uma visita do mexicano ao seu país, organizam seus horários, convidam amigos e pagam 80 reais pra assistir àquela exibição de talento.

Eu não conseguiria reunir 10 pessoas que pagassem 1 real pra me assistir trabalhando. Nem a pau!

Mas tem outra coisa engraçada em show. Encontrar pessoas conhecidas na multidão. Mais.. tem gente que surta se alguém consegue encontrá-lo de longe. Se o vir pela TV então.. capaz de ter um ataque cardíaco.

Aconteceu no show do U2 em São Paulo. Ninguém me contou, eu vi! Já tinham fechado a Hot Area e nós estávamos ali, comemorando por termos conseguido entrar e esperando o tempo passar. Como ali dentro não é atrolhado, podíamos ficar conversando na boa, sentar ou levantar a qualquer hora, ir ao banheiro tranqüilamente, enfim. Ao meu redor: duas patricinhas, uma delas de rosa e boné amarelo; Alice e Catherine, mãe e filha, as que me deram a bandeira do Brasil no final do show; um casal.. ele, o Carlos, bem magrinho, ela, Márcia, pesava umas três vezes o peso dele. Muito gigante! Daquelas que têm seios grandes, mas que a massa que tem abaixo ultrapassa, fazendo uma forma única, e muito alta. Daquelas que suam o cantinho da testa ao menor sinal de calor. Os dois e um amigo.

Entre os assuntos que discorriam, Alice advertia a filha Catherine sobre a conta do celular, que tinha dado muito alto, que era pra ela maneirar e tals. Foi ela fechar a boca, Márcia pediu o telefone emprestado, caso Alice não se importasse. Bah, não acreditei.. ela tinha acabado de reclamar da conta do telefone! Mas emprestou. Na maior cara de pau, olhou o número no seu telefone e ligou com o de Alice..

- Alôôôôôô!!!!?
Tiiiia? A Carla tá aí?
Não?
Tá, tudo bem. Ela tá no show?
à hããã.. tá, me dá o número então..
Tá.. oooito.. ã hã meia cinco.. tá.. tá.. obrigaaaada!

Desligou, e com a mesma cara de pau e naturalidade disse que só faria mais uma ligação. Ligou.

- Caaaaaaaaaarla!!!! Oooooooooooi!!!!
Eu to aqui na hot area!!!! Isso, aqui no palco..
Onde cê tá?
Na arquibancada? Ah tá.. no anel bem de cima
Camiseta preta.. cê não tá vendo?
Olha aqui.. bem em frente à caixa de som.. não, mais pro lado, peraí!

Nisso ela passou a mão no boné amarelo da patricinha, que ficou boquiaberta.

- Eu tô sacudindo um boné amarelo, tá vendo?
Aqui.. cê tá vendo? Tá vendo? Tá vendo?
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Amigaaaaaaaaaaaaaaaaaa AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

A cena foi das mais clássicas. A Márcia, com seu físico de cinturinha de kombi pulava, e tudo nela balançava. Sacudia o braço que parecia um salame daqueles que ficam pendurados com um cordão amarrado na volta, e gritava sem parar. Gritava muito! E a chamada correndo. Mas era tão engraçado que a Alice nem reclamou, todos riam muito, inclusive o Carlos, o namorado e a patricinha, a qual ela subtraíra o boné amarelo. Cada berro dela era ensurdecedor, e eu me deitava no chão de tanto rir. Foi clássico!

Mas Márcia queria roubar a cena mais uma vez. E conseguiu. Num show é comum, os caras colocam as gurias na garupa.Uma perna da moça de cada lado do pescoço e a nuca do rapaz no paraíso. Ela nas alturas, acima de todos. Braços erguidos e peitos estufados na camiseta. Coisa mais linda!

Ao ver aquela cena, Márcia não hesitou..

- Ah não, eu também quero!! – olhou pro namorado.

O silêncio se instaurou. Ninguém mais falava nada, só observavam a cara de pré falecido do Carlos. Cara de carro daqueles filmes americanos que são esmagados numa prensa. Mas o anjo da guarda de Carlos deu os ares..

- Aaaaai, amor.. tadinho, não vai poder, tá com o joelhinho machucado. – todos respiraram aliviados. E logo veio outra bomba...

- Aháááááá.. mas você não tááááááááá....!!!! – e apontou pro amigo.

- Te fudeu, magrão!!! – concluiu o Carlos.

Tuesday, March 14, 2006

Piscina de bolinhas...

Eu sempre digo que as pessoas mais felizes são aquelas que guardam um pouco da inocência de criança dentro de si. Isso num âmbito psicológico. Já no material diria que felizes plenos são os que não precisam de grandes posses ou dinheiro pra se divertir. Os que conseguem fazê-lo no simples.

Eis que um dos momentos mais divertidos que guardo - e acredito que muitos mais não hesitariam em fazer isso hoje – é a piscina de bolinhas que eu brincava ali no Iguatemi. E o melhor: era de grátis! Minha mãe, que nessa época ainda era Dona de Casa, depois que terminava os afazeres do lar levava eu e a minha irmã pra brincar na tal piscina.

Pra nós aquilo era o paraíso. Estar num ambiente isolado dos grandes, e criança tem essa rivalidade com os adultos, com o único propósito de brincar. Naquele momento não haveria nenhuma tormenta de estudo, de manter a roupa limpa, de não correr pra não se machucar.. nada!

Como se não bastasse nossa alegria de poder, de vez em quando, brincar na piscina de bolinhas do shopping, uma vez os caras se puxaram.. trouxeram o Parquinho da Turma da Mônica!!! Bah, nem era de se acreditar! Um parquinho inteiro, todo com massinhas de modelar (eu era craque em fazer esculturazinhas de massinha), folhas em branco e canetinhas, escorregadores, puffs com as caras do Cascão e do Cebolinha e o brinquedo mais perfeito que podiam nos apresentar: o Elefante!

Bah, o Elefante era sem explicação. Um enorme colchão inflável montado dentro da cabeça do Elefante verde da Turma da Mônica. Ali ficávamos pulando, dando cambalhotas, rolando de um lado pro outro... muito bom!

Hoje vejo ambições da vida assim, como querer mergulhar numa piscina de bolinhas particular. Mas assim como algumas crianças eram barradas por idade ou por tamanho, ou até por mães que simplesmente não deixavam brincar, alguns dos nossos ideais esbarram em adversidades que nossa parcela inocente não entende, e nos limita a olhar para aquele brinquedo de longe, mesmo sabendo que foi feito pra nós.

Até o dia em que o guarda dormir e eu invadir minha piscina de bolinhas à noite. Quando já for dia e todos perceberem minha alegria de criança e o envolvimento com o brinquedo, tenho certeza que ninguém vai querer nos afastar...

Monday, March 13, 2006

A grande questão..

Quem eu quero ou quem me quer???

Queria que fosse mútuo..

Wednesday, March 08, 2006

A minha alegria atravessou o mar...

Quarta-feira da semana que precedia o Carnaval. Eram quase duas da tarde quando eu iniciava mais uma entre tantas aprontadas. Sim, daquelas que só acontecem comigo e que me rendeu, pela amada Pi, o apelido de Corpo Fechado, vulgo Papaéu.

Meu vôo estava marcado para as 14:15h de quinta. Almocei com um brother na rodoviária de SP (estação Tietê do Metrô) e estava prestes a voltar pro Rio. Comprei a passagem de ônibus SP/RJ para as 14:20h. Poderia curtir o restante do dia e a manhã do dia seguinte na cidade maravilhosa. Mas não seria tão simples assim.

Cinco pras duas, uma amiga ligou. Ainda não tínhamos nos visto, e ela ficou indignada quando soube que eu estava indo embora. Queria que eu tomasse pelo menos um chopp com ela e as amigas. Lá fui eu.. cancelei a passagem e deixei o horário em aberto. No final da tarde me encontrei com elas na casa de uma amiga, a qual tinha me passado o endereço.

Conversamos um pouco ali e fomos tomar um chopp. Eu e mais umas 5 mulheres. Foi muito divertido, embora minha participação tenha se resumido a rir das besteiras que elas falavam, e que não eram poucas.

Eram quase dez da noite quando elas me largaram na estação do metrô pra eu ir pro Rio. Tava tudo certinho, era só eu ver o próximo horário de ônibus e ir.. ao que eu tive o seguinte raciocínio:

Eu ia passar a noite viajando, ia chegar no Rio com uma mala e uma mochila e não ia poder nem pegar uma praia, já que não teria onde deixar as bagagens até o início da tarde, quando sairia o vôo. Na hora me veio a idéia de curtir uma noite em SP mesmo. Deixaria as bagagens num guarda volumes e sairia pro Rio na manhã seguinte. Viajaria dormindo e chegaria quase na hora do vôo. Perfeito! Ou não...

Sem pestanejar deixei as tralhas no guarda volumes da estação e peguei um táxi até a Vila Olímpia, onde tinham uns barzinhos. Acabei ficando no Favela, que era o mais movimentado. Fiquei ali, degustando um chopp e saboreando um caldinho de feijão. Coisa mais boa! Às cinco da manhã fui embora. Teria que pegar um táxi até a estação mais próxima e dali, o metrô até a estação Tietê.

O garçom disse que eu poderia pegar um ônibus, em vez de táxi, já que passava um ali na frente e o ponto final era justamente na estação. Esperei um pouco e veio o tal ônibus. Entrei, paguei a passagem e... apaguei.

- Ô magrão, acorda! Final da linha! – me cutucou o cobrador.

Acordei apavorado, entrei na estação, comprei o bilhete do metrô, esperei.. embarquei. Quando abri os olhos eu estava quase no fim da linha do metrô. Tinha passado e muito a estação Tietê, que era a da rodoviária. Desci as escadas rolantes, subi do outro lado, peguei o metrô de volta e... dormi de novo! PQP!

Dessa vez acordei umas cinco estações depois. Lá fui eu.. tudo de novo. Desce escada rolante, sobe do outro lado.. embarca e... dorme! PQP!

Resumindo: eu dormi 6 (seis) vezes na porá do metrô. Acho que conheci São Paulo inteira dormindo. Até que na última, como eu tinha passado só duas estações, resolvi ir em pé. Se eu dormisse ia cair no chão. Finalmente consegui descer. Só que aí me deparei com outro problema. Fiquei quase duas horas naquela função vai-volta dormindo. Eram 7h da manhã, e um ônibus pro Rio demora umas 6h de viagem.

Consegui passagem pras 7:40h e comecei a fazer os cálculos.. mais seis horas dariam 13:40h na rodoviária. O vôo era às 14:15 do Galeão, certo que não daria tempo. Azar, fui assim mesmo. Como o esperado, o ônibus chegou na rodoviária do Rio exatamente às 13:40. Pulei pra dentro de um táxi e perguntei se o motora conseguia estar até às 14:15 no Galeão.

- Já estamos lá! – afirmou ele, convicto.

Às 14:13h cheguei no aeroporto e corri até o guichê da Tam. As pernas estavam bambas. Não sabia o que faria se perdesse o avião. A minha passagem era promocional e não aceitava trocas. A moça emitiu oi bilhete.. uuuuuuuufa!

14:40! O Vôo tinha atrasado. Bah, muita sorte mesmo!

E assim pude viajar, finalmente, tranqüilo.

O Carnaval...

Nessa mesma quinta, subimos de Porto Alegre pra Laguna, pro Carnaval. Chegamos lá na madruga e já demos início aos trabalhos. De leve.. só pra dar embalo pros próximos dias, que prometiam.

A rotina não mudava muito.. abastecíamos um ou dois isopores de ceva e gelo e íamos pra algum lugar. O cenário sim, mudava. No primeiro dia fomos até uma prainha que tem ali do lado.. Itapirubá. Muito astral, com mar dos dois lados. Fizemos campeonato de A Última Chance, acho que é um quadro do programa do Huck. Amarramos uma camiseta no cantinho da goleira e ali tentávamos acertara bola. O Rodrigo comandava o espetáculo fazendo uma narração muito engraçada.

Na casa também aconteciam coisas muito engraçadas, o que era de se esperar já que ali se instalavam 21 pessoas. Fizemos uma lista das atrocidades que a gente falava, depois eu trago pra cá. Na porta da geladeira colamos uma consumação de bar, que nós mesmos confeccionamos. Ali a gente marcava um x pra cada ceva que tomasse. Isso quando lembrasse. E era muito x. Lá pelas tantas alguém se indignou e escreveu: “Bibi demais”, e assim foi. Tudo era graça, tudo era motivo de riso.

Na avenida escolhíamos um lugar pra estacionar os isopores e curtíamos a bagunça geral da galera. O legal de Laguna é que todo mundo fala com todo mundo. Parece que as pessoas se desprendem de seus escudos e todos têm um só propósito que é a folia e a diversão.

O domingo, como sempre, foi marcado pelo fato de os homens se vestirem de mulher. A bagunça começa na casa, onde as gurias nos ajudam a escolher as roupas e a fazer a nossa maquiagem. A galera se liberta.. hahahahha.

Não me lembro se foi na sexta ou no sábado.. sei que um magrão inventou de estragar o jipe bem na frente da nossa casa. E o jipe era virado em som. Pra que... Fizemos a festa ali na frente da casa mesmo. O magrão, que na verdade era gordão, pulava como criança em cima do capô do jipe. O capô afundava e ele nem aí.

Os dias e as noites seguintes seguiram nesse embalo. Festa de dia e de noite.. muita, muita e muita ceva. Uma pena que acaba. Uma festa única de diversão sem igual. Uma casa ocupada só por amigos que faziam festa em qualquer lugar e a qualquer hora. Sem preço!

Que venha 2007!

Thursday, March 02, 2006

RaU2...

Sinceramente, eu achava que nada superaria o show dos Stones. Mesmo tendo passado a maior parte do tempo preocupado em conseguir manter o lugar onde estava e também a integridade física, o que não foi nada fácil.

No domingo eu estava perdido. Não sabia se ficava no Rio, se ia conhecer Cabo Frio ou ia pra São Paulo. Pela propaganda que me fizeram preferi conhecer Cabo Frio. Fiz muita festa e conheci uma das praias mais lindas e limpas que já vi.

Segunda-feira comecei a tomar rumo pra algo que eu imaginava ser grandioso, mas que ainda era muito incerto. Na rodoviária do Rio, na fila pra comprar a passagem, conheci dois novos amigos: a Cíntia e o Jéferson. Os dois tinham ido no show dos Stones e a Cíntia também ia no U2. Ficamos ali na rodoviária tomando um chopp enquanto aguardávamos os respectivos ônibus.

Já em São Paulo encontrei o Zé Gota na saída do show e pude perceber a sua empolgação. Mesmo assim não imaginava o que me esperava na noite seguinte. Ele fora no show da segunda e eu iria no de terça.

Acordei cedo, tomei um café e fui pro estádio. Aí aconteceu o primeiro contratempo. Eu ainda não tinha retirado o ingresso, e imaginava que pudesse fazer isso no Morumbi, local do show. Não podia, só no Pacaembu. O pior é que eu já estava na rua do Morumbi. Eram 10h da manhã. Tive que sair perguntando pra um monte de gente que ônibus eu pegava pra chegar no Pacaembu. Três horas e meia depois e quatro ônibus, consegui voltar ao Morumbi e encarar a quilométrica fila.

Não queria passar pelo mesmo sufoco do show dos Stones. Então, já que eu ficaria longe do palco nem ia me estressar. Nisso, fiquei sabendo que liberariam os 4 mil primeiros da fila pra Hot Area, um espaço reservado, grudado no palco. Antes de iniciarem as vendas especulava-se que os ingressos pra esse espaço seriam vendidos a mil reais.

Esqueci todo o sofrimento do show de sábado e novamente estava disposto a passar pelo que fosse pra entrar na tal Hot Area. Às 3h, quando abriram os portões meu pensamento não saía disso, de conseguir entrar ali. Avistei o gramado e saí correndo muito, tentando passar quem estava na frente, porque uns iam caminhando. Corri, corri, corri.. até que vi os seguranças pedindo pra gente se acalmar e fazendo sinal pra entrarmos na Hot Area. Assim que passei na catraca minhas pernas começaram a tremer. Muita gente gritava, uns choravam. Eu simplesmente não acreditava.

Corri pra frente do palco e me agarrei na grade. Olhava pro palco ali na minha frente, a menos de quatro metros. Loucura! O que eu teria feito pra merecer tamanho presente?

Olhei pra trás e vi que já tinham bloqueado as catracas, e a galera já começava a se acumular na grade que dividia a hot area. Tive muita sorte em ter conseguido entrar.

As horas passaram voando até começar o show. Como não estava atrolhado, pudemos esperar na boa, sentados, sem aquele tumulto todo.

O show...

Não há como eu descrever em algumas linhas a sensação de estar lá. Cada acorde, cada toque na bateria, cada palavra do Bono... tudo era de arrepiar. Um espetáculo sem igual, sem preço. Uma sensação de não haver lugar nenhum que se queira estar senão ali. Agradeço muito por esse momento, e sugiro que quem gosta de boa música um dia se disponha a assistir esse espetáculo. Maravilhoso!

Uma lembrança...

Antes de começar o show, conversei com os que estavam à minha volta, entre eles uma mãe com sua filha. Alice e Catherine, respectivamente. A Alice contou de todos os shows que já assistiu.. Paul McCartney, Rod Stewart, Stones, e por aí vai. Tinha consigo uma enorme bandeira do Brasil, que deixou pendurada na grade até o final do show. Sacudia a bandeira toda empolgada a cada música.

A todo momento a Alice reclamava por não venderem cerveja dentro do estádio. Combinei então de tomarmos uma gelada na saída. Assim que terminou saímos e compramos duas latas dos ambulantes ali de fora. A Catherine quis levar uma bandana do U2. Custava 1 real, e ela procurava se tinha trocado. Como eu tinha algumas moedas, saquei uma de 1 real e entreguei ao vendedor. Ao que Alice, sua mãe, interviu:

- Deixa eu retribuir com uma lembrança então. Toma esta bandeira! – e me ofereceu a enorme bandeira do Brasil.
- Que isso, Alice!? Não tenho como aceitar! Não posso aceitar mesmo!
- Por favor, você disse que vai a muitos shows. Leva consigo ela sempre. Vai ser uma lembrança desse shows e das suas amigas de São Paulo.
- Bah.. muito obrigado mesmo! Não sei como agradecer!
- Que isso, garoto, não precisa agradecer não!

Fui pra casa boquiaberto. Pelo show e pelo presente que ganhara. Coloquei a bandeira às costas e fui embora.

Mais uma vez agradeço por tamanha generosidade do Cara lá de cima.

Ainda tem o Carnaval...

Monday, February 20, 2006

Raulling Stones...

Saí de casa, na sexta, com o espírito programado pra muita aventura. Aventura às ganha! Pra variar, não tinha arrumado nada das minhas roupas. Deixei-as pra lavar na quinta à noite enquanto me arrumava pro super Pré Carnaval da galera, que foi muito, muito, muito bom! Todas marchinhas de carnaval e mais superfantástico e uni-duni-tê.

Na sexta de manhã soquei as roupas todas na mochila e fui comprar uma bolsa decente no Bourbon. Dali peguei um táxi e fui pro aeroporto.

Coisa bem boa essa de viajar de avião! O momento da decolagem é algo inexplicável. Aquela velocidade toda parece que não pára de aumentar, até que o bicho daquele tamanho ganha o ar.

Sem palavras o momento que passei por Bombinhas. Dava pra ver todas as praias bem direitinho.. Bombas, Bombinhas, Sepultura, Retiro dos Padres, Quatro Ilhas e a maravilhosa Praia da Tainha.

Cheguei no Rio e fui pro albergue tentando me achar com o mapinha que tinha ganho no aeroporto. Era um olho nas plaquinhas das ruas e outro no mapinha. Nem dava pra ver que eu tava perdido.. hehehhe. Dormi no ônibus e, quando acordei, imaginei estar na Atlântica. Dito e feito. Me levantei apavorado e puxei a cordinha. O motora parou e eu desci. A rua do albergue era paralela à Atlântica, duas quadras pra dentro. Mas óbvio que eu desci quase um quilômetro depois. Uma mala, uma mochila, 38 graus na moleira e 1km pela frente...

Finalmente cheguei no tal albergue. Stone of a Beach.. o nome era preza! Já tinha visto uns gringos pela rua, mas a recepção do troço eram só eles! Me dirigi ao balcão pra tentar ser atendido..

How spoipbr can tyudglkj help hkjdhk you?
QUÊ!!!!!???
Qual es kjgfku tu hkhd resiervahodb señor?
Moça, eu falo português!
Ah tá, desculpa!

Ela confirmou minha reserva e passei pro quarto. Cinco beliches, ou seja, dez camas. Só eu de brasileiro. Não cheguei a falar (ou tentar falar) com todos do quaro, mas tinham uma guria e um magrâo australianos e uma outra guria inglesa. Pra falar a verdade, acho que no albergue todo só tinha eu mesmo de brasileiro, nunca vi tanto gringo reunido.

Tomei um banho e fui dar uma conferida no local do show. Bah, só sair na rua do albergue, duas quadras da praia, e ver o palco ali na frente, muito perto mesmo. Ali na praia eu já comecei a observar os tipinhos que figurariam na minha aventura.. neguinho vendendo até a mãe! Um outro fez uma escultura na areia da boca dos Stones com o Mick Jagger sentado com uma guitarra no colo, muito fera.

Procurei uma choperia legal e fui comer alguma coisa. Meu propósito era de acordar às 6h da manhã e pegar um lugar o mais próximo possível da grade que separava da área vip. Já tinha gente acampada àquela hora! Fui no Manuel e Juaquim, uma choperia muito legal. Tomei uns (15 hehehe) chopp e voltei pro albergue. Achei uma cana vazia e capotei. Deixei o recepcionista avisado pra me acordar às 6h.

Conforme o combinado ele me acordou, mas me enrolei um pouco. Preparei a mochila, comprei 4 garrafinhas de água, pilhas pra máquina e fui pra praia. Cheguei por volta das 8:30h. O máximo que consegui chegar foi uns 5m da grade, mas bem na frente de onde chegaria o palco móvel. Acomodei os dois pés ao lado de uma barraca e atrás de uns guardassóis e ali fiquei.

Desafiando os limites da raça humana...

Ali eu já imaginava do que estava por vir.. e eu estava disposto a passar pelo sacrifício que fosse. Durante quase todo o tempo não pude mover os pés. Como eu tinha acordado sem fome, imaginei que não teria fome pelo resto do dia, não sei de onde eu tirei essa tese.. sei que às onze da manhã eu não agüentava mais o calor e a fome. Assim como levantei sem fome, na rua do albergue tabém não tinha sol, mas não era porque estava nublado, era pela sombra dos prédios. E então também não levei protetor solar. O sol eu tentava amenizar com a camiseta. Mas a fome não tinha como enganar.. a minha sorte foi que me enturmei com quatro magrões de Niterói, e eles levaram dois pacotes de pão de sanduíche, queijo e presunto. Quando começaram a comer me ofereceram e eu aceitei, claro.

O tempo parecia que não passava nunca. As pernas doíam, o sol ardia. Tínhamos que nos limitar a respirar. O corpo transpirava sem parar. Duas da tarde... Quanto mais o sol castigava, mais resistentes as pessoas ficavam. Ninguém desistia. No lugar que eu estava não conseguia ao menos sentar no chão. Nem trocar de posição. Horrível! Duas e meia.. Duas e quarenta.. Cada minuto valia por uma hora. E a área vip vaziazinha, a galera devia estar dormindo ainda.

Bom, não sei como agüentei, mas sei que agüentei. Às sete da noite,m quando a gaklera desarmou os guardassóis, me meti por baixo e me acomodei a uma fileira de pessoas da grade. A partir de então nem os braçoa eu podia mexer. O que estava pra baixo ficava pra baixo e o que estava pra cima, ficava pra cima. Começou um fortíssimo empurra-empurra. Todos querendo se aproiximar mais e mais da grade. Até então nada de xixi! E enm pelas horas seguintes. Eu usava a água apenas pra molhar a boca.

Na hora do show do Titãs o empurra-empurra fo mais violento. Algumas pessoas começaram a passar mal e tiveram que ser retiradas. Resisti bravamente.

Finalmente, a tão esperada hora. Os Stones entrariam no palco. Gritaria ensurdecedora. Se não me egano abriram com Jumping Jack Flash.. loucura! Aí foi um salve-se quem puder. Uns pulando, outros tentando manter-se em pé, outros passando mal.. loucura, loucura, loucura. Eu só tentava cuidar da minha mochia que estava com a máquina e me manter em pé, o que era muito difícil. Não tinha nem como abrir a mochila pra pegar a máquina, o nível de esmagamento era extremo.

Na hora que o palco começou a se mover ocorreu a catarse. Achei, sinceramente, que eu participaria da maior tragédia da história. Muita gente passou mal. Eu não trocava aquele momento por nada. Fiquei ali, a menos de dez metros daqueles monstros! Impagável, impagável. Não sei como, mas consegui tira a máquina da mochila e bati umas fotos, sem ver, só com o braço levantado.. nem seise vai sair alguma. Mas o mais importante estava ali, bem ali. Uma oportunidade que provavelmente jamais se repetirá.

Assim que o palco começou a voltar eu saí do tumulto, o que também foi tarefa arduíssima. Queria chegar na praia pra fazer xixi. Depois de uns 15 minutos cheguei. E quem disse que pude.. a praia lotada! Todo mundo dentro da água enlouquecido e pulando. Galera com prancha, com bóia.. Tive que voltar uns 800m até achar dois cara-dura mijando na frente da galera. Foi ali mesmo. Ninguém tava nem aí.. passou um negãozinho e fiz xixi em cima do pé dele. Achei que ele ia se invocar.. que nada, nem viu! Hahhahahaha

Acompanhei o show terminar lá de trás, pelo telão. Loucura! Muito bom mesmo! O Mick esbanja energia que não te deixa sentir cansado. Uma das melhores coisas que eu podia ter feito mpor mim nessa vida. É muito bom ter essa sensação de realização! Na verdade a ficha aind anão caiu!

E ainda tem o U2, amanhã.. aguardem!

Sunday, February 19, 2006

Drops...

To no ciberzinho do albergue, só posso ficar 20 min, que é de grátis..

Há muito pra falar sobre o show de ontem, ao mesmo tempo que para alguns momentos não há palavras pra descrever. Ver os coroas a menos de 10m não tem preço. Valeu todo o torrão do sol, todo o suor, todos os pisões no pé, todos os empurra-empurra, tudo. Por uym momento cheguei a pensar que faria parte de uma das maiores tragédias da humanidade.

Teve muita coisa engraçada. Depois entro num ciber com tempo livre e escrevo.

Muitas saudades de todos!

Wednesday, February 15, 2006

Cardíaco...

Não me considero hipocondríaco, muito pelo contrário. Eu já nem fico doente pra não ter que tomar remédio. Todo ano temos exame médico periódico aqui na Vivo, mas volta e meia eu mato um. Ninguém merece ficar sugando o sangue do cara.

Pois eis que há uns dois dias senti um “desconforto no peito”. Esse foi o termo médico usado pra umas fisgadinhas que eu senti. Foi bem fraquinho, só que como eu sou muito assustado, achei que tava infartando.

Num movimento leve como braço esquerdo pra trás, consegui amenizar a fisgadinha, mas o sentimento de estar tendo um ataque no coração já se abatia sobre mim. Em segundos todos os sonhos de um lar, uma família, filhos.. aquela gurizada ranhenta correndo no pátio, cachorro, viagens.. todas essas coisas começavam a se apagar.

Já podia me ver sendo levado por uma ambulância e tomando aqueles choques que fazem aparecer até o esqueleto do cara, tipo desenho animado.. tudo isso me passou pela cabeça em instantes. Até que caí na real.. pô, eu não sou gordão, bato uma bolinha toda semana, e tenho 28 anos. A vida não seria tão cruel assim comigo. Voltei a trabalhar. Dei umas apalpadas parecidas com exame de câncer de mama e voltei a trabalhar.

O problema é que o tal desconforto não passou. Fiquei dois dias sentindo essas fisgadinhas de leve e pensando todas aquelas coisas de novo. Vou ter que ir ao médico – pensei. Tenho um futuro promissor, não posso ficar a mercê de um ataque cardíaco repentino.

Ia ter que enfrentar o médico, estava decidido. O trajeto aqui da empresa até o hospital foi em contagem regressiva. Ia ser internado e logo passar por uma cirurgia, certo que ia. Como ia avisar os meus pais? E os shows dos Rolling Stones e do U2? E o carnaval??? O carnaval??? Que hora pra ter um problema no coração. Ia ter que fugir do hospital!

Bolei todo o plano de ação.. eles iam tirar toda a minha roupa e colocar aquele pijama verde-clarinho. Azar.. assim que a enfermeira se distraísse eu ia fugir. Ia sair correndo pelo corredor do hospital até conseguir voltar pra casa. Se quisessem que agendassem a data da cirurgia pra março, depois das festividades.

Cheguei no hospital. Meu coração palpitava. Talvez fossem suas últimas batidas. Não tive tempo nem de falar com a mãe, a bateria do telefone tava acabando. Celular é um ótimo consolo nessas horas. Parecia que todos me olhavam como um pré-operado. Tanto que cheguei na recepção e fiquei sem falar, queria que o atendente soubesse do meu problema. Respirei fundo e falei o que estava sentindo.

Fui encaminhado para um Clínico Geral. A agonia tomava conta de mim. E ninguém sabia que eu estava ali. Todos iam saber da tragédia de surpresa. Tentei me acalmar. Percebi que eram dois os clínicos que estavam atendendo: um médico e uma médica. Ele careca, com cabelos só dos lados e meio corcunda. Ela muito bonita, cabelo cor de cobre, usava óculos, seios salientes e devia ter uns 30 anos. Os predicados da doutora serviram pra amenizar minha angústia. Queria ser atendido por ela, não pelo careca corcunda. Se alguém fosse me apertar o peito, escutar meus batimentos, que fosse ela.

-Raul Vieira

Era eu! Era ela! A doutora que ia me atender! Num segundo todas as minhas preocupações com o coração deram vez a uma possível investida com a jovem doutora. Já imaginei ela me colocando numa maca e tirando minha camisa, alisando meu peito... sentindo aquele perfume e olhando para aquele batom vermelho encarnado nos lábios grossos... encostando o ouvido no meu peito..

- Meu nome é Aline, pode sentar – falou bem mais séria do que eu imaginava. – Então, Raul, o que tu estás sentindo?
- Ah.. desde ontem estou sentindo.. blá blá blá.. blá blá blá..

Nada de maca, nada de abrir camisa, nada de ouvidinho no peito! Só estetoscópio..

- Olha, Raul.. parece tudo ok, mas vamos fazer um eletro pra não ter dúvidas. Vou pedir pra enfermeira fazer teu eletro e te dar uma medicaçãozinha. Qualquer coisa tu volta aqui.
- Tá..

Fiquei numa salinha esperando até que veio a enfermeira com aquele monte de chupetinhas na mão. Ia ser eu e o Frankstein. A enfermeira não era em nada parecida com a Doutora Aline, não dava pra ter nenhuma segunda intenção. E essa sim, me colocou na maca. Me encheu daquelas chupetas e ligou o equipamento do eletro.

- Dá choque?
- Hahahahahaha, não.

Imprimiu o eletro e me levou pra salinha de medicação. Vários daquelas hastes metálicas pra soro e uns encostos de braço. Será que ia ser uma injeção? Ah não, injeção não! Dito e feito: injeção!

- Eu tenho medo de injeção!!!! – Anunciei.
- Ah é? Pois eu vou te aplicar uma injeção. – Sarcástica!
- Posso não olhar?
- Pode, claro.. fica pensando na vida.

Olhei pro outro lado e ela foi me apertando com aquelas borrachas de soro. Quando vi tinha uma garrafinha pendurada pingando um suquinho verde num caninho até a minha mão. Quase meia hora depois e começou a terminar o líquido, que eu nem sabia o que era. A enfermeira saiu da sala. Tinham mais duas mulheres na mesma situação que eu. Fiquei preocupado se podia acabar o líquido com a agulha fincada na minha mão. Talvez entrasse ar! E agora? Lembrei que num filme do McGiver um cara matou um desafeto aplicando-lhe uma injeção de ar. Eu ia me livrar de um ataque no coração e ia morrer por ar na veia. Precisava fazer alguma coisa. Pensei em arrancar aquela parafernalha toda. E nada de a enfermeira aparecer!

- Olha, o teu vai acabar! – Disse a senhora que estava na minha frente, prevendo o meu fim.
- Eu vi, mas a enfermeira não aparece.

De repente acabou mesmo todo o líquido do frasco e a mangueirinha começou a esvaziar. Cada centímetro que baixava o nível era desesperador. Segurei o esparadrapo, estava prestes a arrancar tudo! Ouva passos no corredor, mas nenhum era da enfermeira! Olhei pra duas senhoras, olhei pra mangueirinha.. quase vazia.. olhei pra porta..

- Oi! Já acabou?
- Já, tá acabando, tá acabando..
- Calma.. ele não desce todo..

Ela tirou a agulha e deixou o algodão. Levei o exame até a Doutora Aline e ela, como já tinha dito, não achou nada de errado com meu coração. Disse que deve ser algo muscular. De qualquer forma elogiou minha atitude de procurar auxílio médico. Disse pra nunca sentir desconforto no peito sem procurar um médico.

Foi só um susto, menos mal. Mas me fez sentir um monte de sensações e medos que não me ocorriam desde criança. E fez também perceber que nossa vida é tão frágil e tão forte, e que nosso coração passa por essas emoções fortes, mas que não superam as sentimentais.

Friday, February 10, 2006

Arrepio...

Diz que não se faz, mas acho hipocrisia.. eu analiso quase todos os meus relacionamentos, sejam os de amizade ou os de paixões. Faço uma espécie de gráficos e tabelas mentais na busca de evidenciar pontos que levem a uma maneira mais sensata de encontrar alguém que concilie afinidades, química e vontade de querer estar com alguém, e só com este alguém.

As afinidades já temos, cada um, as suas. Podemos mudar um pouco, vir a conhecer lugares, comidas e músicas antes não apresentados. Mas nada que seja tão significativo. A química só se conhece do jeito que aprendemos no primeiro grau: experimentando. Um corpo A reage (ou não) com um corpo B. A isso somam-se as afinidades, os momentos vividos antes desse, e a mística curiosidade do que ainda pode vir a acontecer. Se a reação resultar em uma explosão de sensações, aí está o primeiro passo pra se alcançar o seguinte: a vontade de querer estar só com este alguém.

Às vezes mudamos um pouco a ordem, e colocamos como premissa inicial não estar só com um alguém. Aí podem aparecer afinidades e química, mas vai ser bem mais difícil demover a premissa inicial, ainda mais quando ela for verificada com freqüência.

E quando a ordem é mudada fica difícil mesmo.. a premissa inicial pode até ser a de querer sim, estar só com um alguém, mas se não der espaço à química, por exemplo, tudo vai por água abaixo.

Isso porque ficamos com medo quando alguém abre seus sentimentos em relação a nós. A barreira natural que muitos de nós temos para com novas pessoas se reforça quando essas novas pessoas demonstram algum interesse. Embora eu perceba e saiba o quão arriscado é abrir os sentimentos antes de fechar as três premissas, prefiro assim: deixar claro que há interesse de minha parte. Não deixa de ser uma mudança na ordem, mas a dificuldade em contornar isso, a conquista dos sentimentos alheios até que se perca o medo, a luta contra si próprio, contra o próprio corpo e mente em controlar atitudes, em saber esperar.. isso tudo é o que alimenta mais a vontade de afirmar os três argumentos.

Por isso que considero importante deixar rolar as coisas nessa ordem: afinidades, química e vontade de querer estar só com este alguém que já confirmou os dois argumentos anteriores. Mas os três são fundamentais. É como uma mesa de três pernas. Se uma delas quebra, a mesa desaba. E sobre essa mesa é que, aos poucos, vai se construindo tudo o que vai sendo vivido, como um equilibrista que vai colocando taças de cristal, uma sobre a outra. É a fragilidade de toda relação que investiu nos três pontos fundamentais.

O mais engraçado é que depois que se concretizam esses pontos fundamentais, a parte que antes relutara em aceitar a revelação de sentimentos e interesses, recobra essas afirmações demonstrando uma incerteza e um querer, um medo de não sentir e apostar sozinho.

Quando um peito se abre aparecem muitas coisas lá guardadas. Os órgãos vitais gritam por algo que lhes instiguem a continuar vivos. Pulmões anseiam ofegar e um coração disparar. Por todo um corpo um sangue quer ferver, quando na retina de olhos brilhantes reflete a luz de uma união de formas de forma que se perceba e sinta que nada disso se sente sozinho.

Wednesday, February 08, 2006

Sim, eu sou muito atrapalhado...

Lá em casa, depois do Ano Novo, todo mundo se larga pra praia, menos o meu pai. E eu e a minha irmã, claro. Tá, mas aí vão dizer: “então é só a tua mãe”. Sim, lá de casa mesmo é só a mãe, mas vão também minhas outras irmãs e meus sobrinhos. E como eles vivem lá em casa, digo que todos lá de casa foram pra praia. Meu pai reluta ao máximo em ir porque tem medo de ladrão. Já entraram duas vezes lá em casa. É uma sensação horrível.. entrar em casa e ver tudo jogado pelo chão, tudo revirado. Marcas de pés nas paredes, grades entortadas, fechaduras arrombadas...

Meu pai, o Seu Antônio, sabe que eu quase não paro em casa, então ele acha que a casa fica muito vulnerável à ação dos arrombadores e prefere abrir mão de estar na praia com o resto da família. Fica de sentinela, de olho nos gatunos. Além de ficar atento a qualquer barulhinho estranho, ele vive fazendo benfeitorias em relação à segurança da nossa casa, que mais parece um forte. Ou pior: um presídio. Já escrevi aqui da saudade que eu tenho do tempo que nosso muro era de pedra, na altura do peito. Ficávamos horas e horas pendurados com a gurizada lá da rua conversando no muro. Hoje o velho murinho inofensivo de pedra deu lugar a grades e mais grades.

Mesmo assim Seu Antônio não cansa.. coloca mais uma corrente e um cadeado, uma tranca pelo lado de dentro, uma trava de segurança, uma lâmpada de presença.. e por aí vai. Fico imaginando o dia que vamos precisar de crachá pra entrar em casa.

Só que tem uma hora que não adianta. A saudade invade o coração turrão do Seu Antônio e ele começa a repensar na necessidade de ficar plantado noites a fio atento a possíveis investidas de malfeitores. “Tu abre o olho aí hein!” Quando ele fala isso eu já sei, ele vai pra praia.

Aí entra meu estabanamento...

Ele não para de me dar recomendações. É ração pros cachorros, água, regar as plantas, juntar a sujeira do pátio, não sair de casa sem fechar tudo, verificar a caixa de correspondências todos os dias, não deixar luzes acesas... metade do que ele fala eu não processo. Mas também.. são coisas que já estão meio intrínsecas ao senso de segurança e vida social. Mas tem uma coisa que eu não consigo.. cozinhar. Eu já não como em casa quando tem comida pronta, que dirá de quando eu tenha que preparar. O problema é que não estou conseguindo nem ao menos ferver o leite!

Hoje foi hilário. As primeiras horas da manhã me lembraram “Um Dia de Fúria”. Acordei meio atrasado e com muito sono. Levantei, olhei pra cama, olhei pro relógio e... tibum! Cama de novo! Tomei um banho rápido pra tentar me acordar e me vesti. Como não tinha café passado nem me estressei em esquentar o leite. Decidi que não estava tão atrasado assim e resolvi que ia parar numa padaria pra tomar café. Quando saí pra porta que dá pro pátio.. tuuuum!!! Shlap shlap... o Duque pulou em cima de mim e começou a me lamber. Voltei e troquei a calça e a camiseta que agora estavam com aquela típica marca de pata de cachorro. Abri novamente a porta, agora com mais cuidado e entrei no carro. Saí com aquele propósito de passar na padaria. Achei uma perto do trabalho.

- Oi.. um café com leite e uma torrada!
- Já te levo o café ali, só que não temos nada de salgado. O falecido ainda não chegou com os salgados. – a mulher já tava falando até do ex-marido.
- Tá, tudo bem, pode ser só o café.

Fiquei ali esperando.. esperando.. esperando. Até que ela disse que a menina tinha ido buscar pão e ia fazer a torrada. Mais uns cinco minutos e, finalmente ela veio com o café e a torrada.

Foi eu colocar a xícara na boca e tocou o telefone. Meu chefe! Bah, chefe ligando a essa hora e eu atrasado não é bom sinal. Era pra dizer que a casa ia ficar sozinha e que todos iam sair, que eu chegasse rápido. Pensei em deixar tudo ali, mas ia ser um desperdício grande. Perguntei se a mulher tinha um copo descartável e embrulhei o restante da torrada. Ela buscou o copo com tampinha e saí.

Quando cheguei no carro tinha um agente da área azul me caneteando.

- Ô cara! Tu já anotou???
- Tu vai sair agora?
- Vou!
- Tá, vai.. mas da próxima vez coloca o bilhete!
- Tá, pode deixar! Desculpa!

Entrei no carro e arranquei, cuidando pra não virar aquele café quase fervendo em cima do banco. Já tava até vendo o desastre.. telefone, mochila, ia molhar tudo! Fui dirigindo rápido e com cuidado.. um olho no trânsito e outro no copo. Uma hora o animal do carro da frente freia de sopetão e eu quase bato, daí sim! “Por que tu bateste?” iam perguntar. “Porque eu tava cuidando o café!” eu ia ter que responder.

Mas não aconteceu nada, graças a Deus, e cheguei com o copinho de café intacto, mochila nas costas, pão embrulhado na outra mão, molho de chaves entre os dedos, uma conta do cartão do pai na boca, telefone também entre os dedos, um óculos de sol na cabeça e o óculos de grau nos olhos. Dei oi pro chefe, que não deve ter entendido nada, subi pra minha sala e tomei, enfim, meu café tranqüilamente.

Monday, February 06, 2006

No Stress – No Preconceito...

Além do Pica, meu cunhado, tenho um outro amigo dono de pastelaria, o Tio Ale. O tio é só apelido, é um gurizão. Mas as gurias do Falcatruas têm essa mania de apelidar os guris inserindo um “tio” na abreviação dos seus nomes: Tio Rô, Tio Vini, Tio Ale... sem que eles tenham que ser, necessariamente, tios.

O nome da pastelaria era Tri Pastel, só que o Tio Ale achava que o nome de pastel afugentava quem quisesse apenas tomar uma cerveja, sem ter que comer. Além do que, pastel lembra fritura, e ninguém gosta de ficar com cheiro de fritura. Então o nome da pastelaria foi mudado pra Tri Bar. Como a gente já tinha apelidado o estabelecimento de Tripa, assim ficou, pra nós. Tripa.

Agora quem andasse perdido ali pela Goethe, em busca de um bar com uma gelada, sem que isso sugerisse comer um pastel de tomates secos ou strogonoff e sem ficar com cheiro de fritura, ali estava o Tri Bar, ou, pra nós, o Tripa.

Numa dessas noites de calor intenso eu tava no Tripa saboreando uma Boehmia com uns amigos e analisando os tipos que perambulavam pela movimentada Goethe. Nada perto da Lima e Silva, mas bem que ali na Goethe perambulam uns tipos muito estranhos. É o tio que vende rosas que tem a cara que parece aquelas máscaras de um dos presidentes americanos no filme Caçadores de Emoção, outro tiozinho todo torto que vende bilhetes de loteria com um casaco de lã, não importa a temperatura que faça, um casal de doidos que corre todas as noites de madrugada. Correr na volta do Parcão tudo bem, mas todas as noites, às 2h da manhã é bem estranho.

E tem também o anti-Cristo, um desses mendigos maltrapilhos com cabelos e barba grandes e aspecto de bastante sujo. Vestia uma camiseta No Stress preta já bem desbotada. Por vezes fico imaginando pegar uma criatura dessas, dar um banho e colocar uma roupa limpa. Garanto que algum poderia andar no nosso meio tranqüilamente.

E não foi que alguém teve essa idéia, só que sem a parte do banho... um magrão que tava ali no Tripa numa roda de amigos chamou o mendigo, que logo depois seria apelidado por eles de anti-Cristo. Foi só ele se aproximar da entrada do bar que o segurança já o barrou. Deve ter pensado que o mendigo ia entrar no bar pra pedir dinheiro pros clientes. Aí o tal magrão se levantou e foi falar com o segurança, disse que o mendigo era seu amigo e que estava o convidando pra tomar uma cerveja.

Meio que a contra gosto, o segurança permitiu que ele entrasse. O mendigo sentou-se à mesa com aquela galera, trouxeram-lhe um copo e serviram cerveja bem gelada. Brindaram e ele bebeu com gosto. Tava bem à vontade, até batia com a mão na perna no ritmo da música que tava tocando.

Não tardou muito, até que ocorreu a indisposição. O Tio Ale foi pessoalmente até a mesa e pediu que, se quisessem a companhia do mendigo, que colocassem a mesa no lado de fora do bar, quase na calçada. Sem cerimônia o grupo todo levantou-se e se instalaram na parte de fora, na grama. E o mendigo junto. Brindaram novamente e e beberam todos, não deixando que nada atrapalhasse a animação do grupo, que era grande.

- Que afudê! – foi só o que comentei.

Ficamos mais um tempo ali e fomos embora. Quando fui pagar pro Tio Ale, no caixa, ele já saiu se defendendo...

- Legal a atitude do cara, ali, só que ele podia ter levado o mendigo pra casa dele e ter dado uma cerveja. Tu não acha?
- Éeea... – concordei meio que desconcordando, com a cabeça inclinada.
- Pô, ninguém é obrigado a aturar o cara fedendo ali do seu lado.
- Pois é.. – na verdade eu não queria discutir aquilo.

Paguei a conta e saí. Achei a atitude dele meio preconceituosa, apesar de o argumento dele ser razoável. Se bem que eu não tinha sentido o tal fedor que ele se referia. Mas o preconceito é assim, uma breve leitura visual nos faz criar argumentos que, na maioria das vezes, são falhos.

Monday, January 30, 2006

Momento impagável...

Tava tomando uma Bohemia no Paradouro Nacional, em Atlântida, quando cheguei à conclusão de que não posso viver sem óculos de sol. O meu Ray-Ban quebrou e o Mormaii de 10 pila que eu comprei em Atlântida Sul, esqueci em Porto. Vi passando uma tiazinha com aquele monte de óculos cravados num isopor.

Levantei o braço e chamei a tia.

- Oi, é tudo o mesmo preço ou varia?
- Varia, moço.. esses aqui são 10, esses aqui 15 e esse daqui 25.. ele é especial.
- Hum.. sei. Esse daqui é 10?
- É, esse daí é 10.
- Legal esse daqui.
- É, é muito bonito.. tem saído bastante desse – sempre o mesmo papo..
- A senhora tem um espelho?
- Ah, desculpa.. tá aqui ó.
- Gostei, vou ficar com ele. Quer um gole? – ofereci o copo da cerveja enquanto eu pegava o dinheiro.
- Ah eu quero um golinho. – tomou com gosto aquele gole.
- Tá bem geladinha né?
- Tá, bem gelada..
- É Bohemia.
- Hum.. não conhecia. Muito boa.
- Pode tomar mais.. – servi mais no copo.
- Ah, obrigado seu moço, vou aceitar.
- Não precisa me chamar de “seu”, meu nome é Raul.
- Ah tá, o meu é Sandra. Tu és de Porto Alegre?
- Sou sim, e a senhora?
- Eu moro lá também, mas sou dE Bagé.
- Ah legal.. terra de gaudério mesmo.

E assim fomos passando o tempo. Ela falando das vendas, da filha, do patrão, do calor, enfim.. um monte de assuntos que deve ter acumulado por passar o dia inteiro perambulando na orla com aqueles óculos. Fui um bom ouvinte, creio eu. Até que ela se soltou mais e disse que gostava de ir a bailões no centro. Conversamos mais um pouquinho e ela enfim se foi. Saiu dizendo:

- Brigado, moço! Muito boa essa Booo.. Bohemia né?
- É. Tchau.. sucesso nas vendas!
- Brigado, moço!

A cerveja desceu até melhor depois daquela prosa e dos óculos. Uma semana sozinho nos faz ficar mais receptivos a essas pessoas que geralmente não conversamos.

Volto a Porto um pouco corado do sol, renovado pela paisagem da sacada do hotel e pelo incessante barulho do mar, convicto de que seria interessante passar umas duas semanas a fio numa praia – não a trabalho – eu ia ficar tri perdido se fosse morar em outra cidade, com muita saudade, e um pouco mais calejado...

Thursday, January 26, 2006

Quem precisa de férias???

Estava eu lá, bem quieto no meu canto quando o Seu Velasco, o nosso chefe, entrou na sala. Passei a vista legeiramente sobre os aplicativos pra ver se não tinha nada “não profissional” aberto. Ainda bem que a maioria dos contatos ativos do msn estavam “em horário de almoço”.

Depois pensei.. “bah, ele vai reclamar do celular, ou do horário..” Eu sempre acho que chefe só vem falar com a gente pra detonar. Isso que nunca tive problemas com chefes, sempre foram muito profissionais.

Pois bem..

- Raul, tudo bem, cara? – Ele sempre fala o nome e pergunta se está tudo bem. Pode falar 15 vezes contigo que vai sempre perguntar.
- Tudo bem..
- Cara, como é que tu tá pra semana que vem?
- Como assim? Tô aí..
- É que o pessoal tá de férias, outro tá de curso.. e eu queria ver se tu podia ficar no litoral semana que vem.

Nisso brotou uma nuvem de idéia na minha cabeça: hotel legal, café da manhã, cama arrumada todos os dias, praia, trampo até às 17h, sol até às 20h, biquínis...

- Bah, sem problema!
- É mesmo, posso avisar ao pessoal que tu vai ficar lá então?
- Pode sim, claro!

Tratei de fazer a reserva no hotel que o meu colega tinha dito que era legal. E é!

Um hotelzão, na beira da praia. A sacada do meu quarto fica de frente pro mar. Quase dentro do mar, dá pra dizer. A piscina é pouca coisa maior que a minha casa. E assim eu tô instalado. Ruim né?

Pois é, mas nem tudo é tão bom assim. O café é bem sortido, mas não é o bicho. Tem aqueles presuntos falsificados sabem? Apresuntado, acho que é o nome. Mas e quem quer saber de presunto?

O mais legal de tudo é ficar torpedeando a galera que tá trampando na cidade. Hahahahaha ontem de manhã mandei uma assim: “Que saco.. esqueci a porta da sacada aberta. Às 7h a claridade do sol nascendo e o barulho do mar não me deixaram mais dormir..” Mas que baita sacanagem!!!

Já falei que eu leio tudo? Sim, desde bula de remédio até rótulo de pepino em conserva. Adoro mesmo são os cartazes e placas escritos à mão. Sempre tem uns erros engraçados. Aí entrei no elevador e me deparei com um assim:

“Garagem coberta.
Monitorizada 24hrs.
Informações na lojinha.
Com cimone ou bigode.”

Monitorizada? Fala sério! Monitorada seria tão mais simples. O “hrs” passa.. embora apenas um “h” resolvesse. Mas o cimone com “c” e “bigode!” hahahhahahahahhahahahahahahahha

Tem um outro porém que nada me tira da cabeça que é uma conspiração contra a minha pessoa. Pra entrar no salão do café tem que apresentar um tiquetezinho que a gente ganha quando dá entrada no hotel. Um tiquetezinho azul. “Vale 1 café”, tá escrito. Aí eu desço todos os dias até o salão e me dou conta que não peguei o tal ticket. Todos os dias!

Assim vou me divertindo, como presunto falsificado, o cartaz da cimone e do bogode e o ticket azul do café.

Abração a todos e até semana que vem, devidamente bronzeado.

Monday, January 23, 2006

Curva da Morte...

Gostamos muito de classificar as coisas. Só que às vezes faltam palavras pra definir certas coisas. Participar do Curva da Morte é uma delas. Podemos classificar os bons momentos da nossa vida como simplesmente bons, ótimos, maravilhosos, mágicos e os melhores momentos. O Curva é, certamente, um desses melhores momentos.

O Curva é um evento que acontece duas vezes por ano em Teutônia, uma cidade que fica a uns 100km daqui. Quem organiza são uns amigos do Décio, inclusive um ex-chefe dele, o Metz, figura impagável.

O lugar também merece um destaque especial: um barzinho desses de beira de estrada, com mesas e bancos compridos de madeira, tudo muito rústico e simples. Simples, uma boa palavra pra definir o lugar e as pessoas que participam. A família que cuida do bar é uma alemoada.. os cabelos parecem barba de milho, e falam em alemão entre eles.

O propósito do Curva é uma reunião de amigos para uma noite de rock n’ roll. Assim, com sobrenome mesmo. Embora a afinidade entre o pessoal seja muito grande, é cada um de uma cidade. Uns de Teutônia mesmo, outros de Lajeado, Estrela, e outras cidades da volta.

Enquanto o pessoal do bar prepara a janta os guris montam a banda num palco improvisado. Legal ver o olhar atento da gringaiada pros instrumentos.. guitarra, amplificadores, bateria.. depois de tudo montado, a janta...

A janta é outra coisa bem difícil de definir. Tudo é muito bom.. massa caseira bem amarelinha, galinha caipira, maionese feita com os ovos dessa galinha, as saladas bem novinhas, uma costelinha de porco sem explicação, troço de louco.

Enquanto nos deliciávamos com aquelas maravilhas um tiozinho dava uma canja num acordeon. Foi o único momento que se fugiu o rock. Mas muito bom. Depois rolou só rock mesmo. Só clássico, um melhor que o outro, até quase de manhã.

E nesse evento espetacular cada um que está ali foi escolhido a dedo. Talvez muita gente não tenha entendido quando eu falei que em vez de ir pra praia. Tinha o aniversário da Ro no Cozumel e o aniversário da minha maninha em Torres. Mas o Curva é o Curva, e eu espero sempre poder participar daquilo.

Impagável!

Valeu, grande amigo Décio!

Thursday, January 19, 2006

As malditas cangas...

Não bastasse aquela mania ridícula de amarrar moleton na cintura no inverno, agora as gurias inventam essa de andar com canga pra cima e pra baixo. Inventam não, isso só pode ser criação de algum estilista sem idéia e puxa-saco de alguma gordinha que não queria mostrar o excesso quando levantasse da areia. No mínimo um dia a moça levantou da areia com a bunda parecendo um croquete gigante e percebeu os olhares malévolos e caçoantes dos homens barrigudos à volta. Porque de barriga de homem ninguém tira sarro. Se tira é algum amigo, ao que o barrigudo recebe com o devido carinho de amigo e até ri.

As mulheres não. Elas têm esse negócio da disputa pelas melhores formas. Ou menos piores, em alguns casos. Elas sabem que o homem sempre vai olhar quando elas levantam, não importa que sejam gordinhas ou magras demais. O homem sempre vai olhar. Uma mulher em vias de se levantar da areia é motivo de atenção geral na praia. Podem ver, até os gurizinhos que estão brincando de pazinha param pra ver aquela tia se levantando pra entrar no mar ou buscar um milho.

Só que essas tais de cangas estragaram tudo. A mulher já levanta se enroscando naquele pano colorido e sacudindo areia em todo mundo na volta. Enrolam uma parte na bunda e outra na barriga. Algumas chegam a puxar até o ombro, aí sim não sobra nada pra ver. E na mesma habilidade e desrtreza com que se levantam, chegam até a cadeira ou ao espaço que estavam e tiram o trapo maldito. Ninguém viu! Aliás.. se alguém viu foram os fotógrafos do Correio ou do Diário Gaúcho. Só eles conseguem ver! Sem contar a posição que elas ficavam pra enrolar a esteira.. seguravam da pontinha, num exercício maravilhoso de alongamento e iam enrolando. Nada daquela sacudida de areia sem graça da canga.

Bom era quando eu era criança. As mulheres carregavam esteira. De palha, compradas nos Artesanatos da avenida. Praia geralmente só tem uma via chamada de avenida. A maioria dos veranistas não sabe nem o nome, só sabe que é avenida. E só quem tinha esteira era a mãe, as filhas geralmente ficavam em cadeiras de praia ou num cantinho da esteira da mãe enquanto esta se ausentava. Esteira e guarda-sol, a alegria dos marmanjos barrigudos. O problema é que nessa época eu não era um marmanjo barrigudo. Era apenas um desses gurizinhos que bricava de pazinha. Até olhava pra alguma tia que se levantava, mas sem saber o motivo, era só porque todo mundo tava olhando mesmo.

Dia desses vi uma saudosista da esteira. Também, deve ter feito um rancho no Artesanato da avenida. Em tempo: lá em Quintão chama-se Artesanato São João. Chegou na praia com um guarda-sol de pano, verde com estampa de peixinhos, desses que só se compram em artesanato mesmo. Hoje em dia a maioria é promocional de empresas de telefonia. Bom.. guarda-sol de pano, chapéu de palha, bolsa de saco de trigo com alça de bambu, mateira de couro e.. a esteira, óbvio! Soltou o nozinho e.. flap, a esteira rolou e se estendeu sobre a areia.

Outro grande problema da canga é quando a mulher se deita sobre ela. Como geralmente é confeccionada em tecido fino, o ar embolsa embaixo, ficando uns gomos altos que fazem a gente confndir com as curvas da moça. Um saco! A esteira não, a esteira fica bem retinha!

Mas nem por isso as curvas da moça estavam à mostra. Uma camiseta e um shortinho de brim escondiam o biquíni. Mas logo logo ela teria de tirar.. Nem dei ouvido aos convites de jogar frescobol com os guris. Fiquei bem sentado, abri uma latinha bem gelada de Polar e esperei... Ela armou o guarda-sol perto da esteira, largou a bolsa e a mateira ali do lado, olhou pro mar e começou.
Tirou o chapéu de palha e sacudiu os cabelos. Não me pergunte o porquê.. o cabelo ficou igualzinho. Mas sei lá.. mulher tem essa mania também de sempre sacudir os cabelos quando tira o chapéu ou boné. Cruzou os baços na cintura e tirou a camiseta. Um piercing! Sacudiu mais uma vez os cabelos.. Era uma bela mulher. Não tinha mesmo por que se esconder em uma maldita canga. Só faltava o shortinho de brim.

Enfim, depois de adulto eu veria uma beldade expor suas maravilhosas curvas ali, bem pertinho, numa esteira! Uma esteira retinha, sem nenhum gominho de vento embolsado, sem que voasse areia em mim quando ela se levantasse. Comecei a imaginar, no pequeno intervalo entre tirar a camiseta e o shortinho, como seria a parte de baixo do biquíni. Se seria grande ou bem pequenininho.. se seria da mesma cor da parte de cima. Mil coisas, imaginei.. minha latinha de Polar já devia estar quente a huma hora dessas. Botei os olhos na latinha, bebi um gole já meio quente e voltei a admirar a moç...a, PQP!!!

Mais que depressa, enquanto dobrava os joelhinhos pra se deitar, sacou da bolsa de pano uma...

Maldita canga, colocou sobre a esteira e se deitou. Só depois foi tirar o shortinho, só depois que o vento já tinha embolsado.

Malditas cangas!

Tuesday, January 17, 2006

Volcano...

Ouvi de dois amigos pelos quais sou apaixonado dizerem um ao outro que o problema de ambos é que precisam se apaixonar por alguém. Perplexo, meu amigo perguntou se ela não estava apaixonada, já que vinha aparecendo nos encontros da turma com um affair.

- Não! – disse ela convicta.

Aí me lembrei da história do vulcão. Uma vez me disseram que amantes incondicionais são como vulcões: podem passar um bom tempo na calmaria, totalmente pacíficos. Porém, por baixo de um espessa crosta, extremamente dura de rocha que é, esconde uma paixão que, quando em erupção, nada mede sua temperatura. Derrete as mais sólidas camadas magmáticas que o encrostam.

Assim era essa minha amiga. Beatriz. A Bia tinha paixões vulcânicas. Parecia que tinha atração por fogo. Inocentes nós. Depois de um tempão vim a saber que o fogo é que atrai homens e mulheres. Enfim, o fogo é comum e fundamental aos amantes. E por isso nenhum dos guris se atrevia a se engraçar com a Bia. Nossas caras repletas de espinhas ainda não ardiam a brasa que cativava o corpo ardente de Beatriz.

E não adiantava, se o tipo não despertasse a paixão de Beatriz a ponto de eruptir, ela o reduzia a mais uma rocha que futuramente seria avassalada pela lava quente que brotaria das profundezas do coração de Bia. Ela não precisava de mais pedras. Bia queria abalos sísmicos. Só aí que foi me cair a ficha da convicção dela ao dizer que não estava apaixonada.

E com o delay que é reservado a nós homens, descobri mais tarde que aquelas paixões vulcânicas não eram uma particularidade da Beatriz. Ela apenas descobrira mais cedo que se suas paixões podiam arder em fogo não tinham por que estagnar em pedra. Felizes aqueles que descobrem sua parte vulcão e sua parte tremor e dividem entre si abalos e erupções, expelindo magmas incandecentes ejetando para longe as pedras que os atravancam e só o que se solidifica são suas lavas que se fazem fundir.

Friday, January 13, 2006

Velhos.. riamos enquanto podemos..

- Raul, eu vou usar o telefone ali embaixo tá? – adentrou a guria da limpeza aqui na sala. Afoita. Esbaforida.
- Claro, Judite! Nem precisa perguntar! – deixei-a bem à vontade.
- Tu acredita que uma velha bateu boca comigo ali embaixo agora? – desabafou. Senti que ela queria falar alguma coisa.
- É mesmo? Por quê?
- Eu tava ali lavando o pátio e a calçada e ela já chegou me metendo a boca: “tu não vê televisão? Tu não sabe que a água tá escassa? Como é que tu tá aí lavando a calçada com essa mangueira?” tentei falar que é ordem da empresa que a gente lave a calçada todos os dias, aí foi pior..
- Hum..
- Ela disse que eu vou morrer como empregada, que eu sou ignorante, que eu devia me impor.. olha, Raul, ela me colocou abaixo do cocô do cachorro.
- Olha, Judite.. eu até não tiro a razão dela. Eu acho totalmente desnecessário lavar a calçada, mas ela bem que podia ter falado com jeito.
- Que nada, ela mal me viu e já veio me meter a boca.. pegou meu número de matrícula e disse que vai me denunciar.
- Mas que bah!
- Aí eu vou ligar lá pra empresa pra eles já ficarem cientes.
- Tá, vai lá.. não te preocupa que não vai acontecer nada. Talvez só mudem a prática de lavar a calçada.

Aí eu chego em casa e vou ter com meu pai. Meu pai é bem diferente da minha mãe. O que ela tem de falante ele tem de fechado. Só estamos eu e ele em casa, minha mãe tá na praia. Commo eu não sou muito de puxar assunto, e ele menos ainda, quase não nos falamos. Os diálogos se repetem todos os dias..

- Calor né?
- Bah..

E assim vai.. “calor né?”.. “Bah!” Só que dessa vez, munido da história do bate-boca da Judite com a velha, resolvi dividir com ele.

- Pai, tu acredita que uma senhora vizinha lá do serviço bateu boca com a guria da limpeza porque ela tava lavando a calçada?

Ao que ele responde com toda a convicção de um aposentado que passa boas horas do dia em frente à TV, assiste a todos os noticiários e lê o jornal de cabo a rabo:

- Mas isso é tudo conversa fiaaaaada. O Guaíba aí tem água aos monte. Isso é tudo conversa fiada desses cara aí.

Juntei o queixo do chão e me recolhi ao meu quarto, me conformando que a falta de assunto ainda era a melhor opção.

Tuesday, January 10, 2006

Desenhar sem borracha...

Uma vez li uma frase que guardo comigo. É simples e diz muito: Viver é a arte de desenhar sem borracha. E vai dizer que não é..? Numa análise simplista como fiz a primeira vez, imaginei uma folha em branco e um lápis. Hoje sei que o papel é um formulário contínuo e não dispomos apenas de lápis, mas de canetas de todos os tipos, giz de cêra, cola colorida, canetinha hidrocor, lápis de cor,...

Assim comecei a desenhar minha vida, 5 anos, num Criança na Avenida, ali na Cristóvão Colombo. A rua era fechada e liberavam pra criançada folhas, tinta têmpera, lápis de cor e afins. Fiz uma bandeira do Brasil. Minha dúvida sempre era a cor do Ordem e Progresso, se verde ou preto. Como nunca dizem preto nas cores da bandeira, fazia em verde.

Hoje vejo meus amigos como fontes inesgotáveis de tintas coloridas a pintar os dias da minha vida. Se revelo um sonho, logo se estende a mão com um pincel e vejo-o se colorir, se anseio diversão aparecem todos de uma vez pois é o desejo geral. Todos eles são inspiração para os desenhos que vivemos. Uns inspiram uma praia com muito sol e água limpa, com sombras de grandes árvores e cantos de pássaros o dia inteiro.

Um outro faz uma pintura de arteiro, outro mais gaudério, um churrasco e um churrasqueiro. Há também quem pinte brindes e presentes, alegrando até os doentes, pinta até mesmo uma banda que toca nossas músicas de criança. Ao que um outro dança e o outro ri. Mas tenho certeza de que ninguém cansa de ver sua vida colorir.

E o melhor de tudo é saber que os pintores somos nós. Somos os mais criativos, os mais audazes, os mais insaciáveis amantes de suas obras, pois sabem que a beleza simples de cada toque pode estar oculta atrás de uma porta, estampada nas estrelas brilhantes da noite ou mesmo na lágrima triste que escorre no rosto de um de seus pintores.

Thursday, January 05, 2006

Tchau meu velho amigo!

Amigo de tantas horas. Te abandonei. Me persegues como jamais imaginei. Para todos os lados onde olho, tu estás. Agora decidi ser forte. Me cobiças, me traz lembranças boas, ótimas, maravilhosas... mas preciso ser forte. Já passaste em minhas mãos de novo.. te olho como se não tivéssemos tanta intimidade.. e podes ter certeza: assim me sinto mais feliz. Meus amigos me olham sorridentes. Eles não te querem comigo! E a cada dia que fico longe de ti, me consagram uma vitória. Se para sempre te abandonar.. campeão serei! Tchau..

Escrevi isso num guardanapo, com uma caneta emprestada, ao perceber que um amigo segue sem fumar depois da promessa feita na virada do ano. Tomara que assim seja. Que fique claro: eu nunca fumei!

Aniversário do Pitoko...

De novo!!! Como é bom saber que depois de um pouco mais de um ano continuo amigo desse cara que conheci aqui pelo blog e se tornou, além de meu amigão, amigo dos meus amigos. Hoje podemos dizer que somos uma família, com certeza. Viagens, tragos, festas, futebol, namoros e separações, formaturas e quermeces, ano novo e natal.

Meu amigo: parabéns!

Saúde e sorte, meu velho! O resto tu te vira.. hahahahhhahaaha

Eu tenho um Kichute novinho em folha...

Estávamos almoçando ali no Casarão do Bom Fim e a pauta caiu sobre o futebol. Bom o rango ali. A gurizada tá reclamando das condições da quadra que a gente joga nas terças, lá no Beira-Rio. Que tá muito esburacada, que não sei o quê, que a rede tá furada... frescuras!

A gente sempre brinca que as pessoas ficam frescas quando têm dinheiro, mas não olhamos atitudes nossas para algumas pequenas coisas. Futebol, por exemplo. Quando a gente era criança jogava bola todos os dias. Colocava os guids, terminava de tomar o Nescau e saía correndo com a bola embaixo do braço. Onde se ia jogar não importava.. podia ser ali na pracinha Ucraniana, no campinho do valão, ou até numa porta de garagem, ali na rua mesmo. Minha irmã, depois que casou foi morar em Cachoeirinha. Eu tinha uns 11.. 12 anos. Fiz amizade com os guris lá do bairro dela e podia jogar com eles, aos domingos depois do almoço. O campinho lá sim, era brabo.. não era nem areião aquilo, era argila seca. Tanto que quando chuvia era impraticável jogar. Tinham uns pedaços de pedra espalhados pelo campinho, várias moitas de capim, bosta de vaca, ora seca ora não.. o negócio mais eracorrer mesmo e tentar tocar na bola, pelo menos.

Aí agora me vêm com essa, de que não querem mais jogar se não mudarem a quadra. Vê se pode!

Mas foi aí que me deu um estalo de ter um Kichute! Pensei na hora: “vou lá no centro e vou conseguir um Kichute pra mim!” Eu sabia que ali na Voluntários e na Júlio de Castilhos tinham algumas lojinhas bem chinelas de calçados. Dessas que vendem de tudo.. tudo o que não presta. Ali certamente tu encontras tênis das marcas MIKE, Reedok, Adibas, e por aí vai..

- Tem Kichute?
- Não
- Oi, tu tem Kichute?
- Não.
- Kichute, tem aí?
- Não, moço!
- ...
- ...

Até que na penúltima, achei! Só que só tinha um par. Só um número. Só o 44! Cheguei a experimentar, mas ficou um lanchão no meu pé 40. Pensei em pedir pra encomendar, mas o atendente me disse que não fabricam mais, que aquele estava ali fazia uns 3 anos. Desolado, saí cabisbaixo e entrei novamente na Voluntários pra ir embora. Ainda tinha mais uma lojinha. Sabia que não ia ter..

- Oi.. não tem Kichute né?
- Tem sim, que número te quer?
- Capaaaaaz??? Tem mesmo?
- Tem sim..

Olhei pra aquele balcão repleto de Kichutes, todos eles pretinhos com as garras de borracha embaixo. Legítimo! Da marca Kichute, com a bandeirinha do Brasil e tudo! Experimentei (tudo com um sorrisão), paguei (23 real) e saí, feliz da vida! Agora eu posso dizer... Eu tenho um Kichute novinho em folha!

Tuesday, January 03, 2006

Lucas e o balão...



Aos oito anos, Lucas via aflorar em si o bicho carpinteiro que acomete toda criança. Olhava para a garagem sortida do pai, Seu Bernardo, e imaginava os mais fabulosos e engenhosos brinquedos. O pai tinha tudo o que era ferramenta e matéria-prima, guardava todas as sobras de obra da casa: pedaços de madeira, canos de água, arames de cerca, restos de tijolos,... Com um pouco de investimento dava até pra construir outra casa.

Mas Lucas gostava mesmo era do formão. Pegava pedaços maciços de cedro e fazia canoas. Com todo o cuidado e atenção escavava um único sulco no pedaço de madeira. Depois que tomava forma, lixava bem e, por fim, envernizava. Pronto: ali estava uma canoa prestes a explorar as águas turvas do tanque da mãe, Dona Ivone. Lucas enchia o tanque, mas a água cristalina não tinha graça. Então ele apanhava um punhado de terra do quintal e turvava a água, dando assim um tom mais selvagem às histórias que produzia sua imaginação de oito anos.

Vez ou outra Seu Bernardo até que ralhava com o pequeno Lucas, por ele ter usado pedaços de madeira bons para outros fins, sabe-se lá qual, mas Dona Ivone pedia que relevasse. Afinal, não havia brincadeira mais sadia e que dispensasse tanto tempo como uma criança brincando de inventar e produzir coisas.

Até o dia que Lucas quis fazer um balão. Vira na televisão, durante as comemorações de São João, um lindo balão sendo entregue ao céu sustentado pelo ar quente de uma chama que vidrava seus olhos brilhantes. Lá na mesma garagem, entre as ferramentas, havia uma prateleira cheia de livros velhos. Desde os didáticos até Lucíola, do Machado de Assis. Subiu num engradado de cerveja que estava por ali e tirou lá de cima uma enciclopédia vermelha de capa dura. Folheou até a letra B e, como supunha, achou o Balão.

Olhava a ilustração e já imaginava, entre os cacarecos guardados pelo Seu Bernardo, o que seria necessário para confeccionar um lindo balão de ar quente. Lembrou até de umas folhas de papel de seda que a irmã mais velha tinha guardado, provavelmente das aulas de artes.

Sem pensar em mais nada Lucas desceu faiscando da caixa de cerveja e tratou de arrecadar tudo o que precisava: arame, cola, uma latinha que serviria de cesto, preguinhos, cordão, etc. Só faltava o papel. Fez os moldes dos gomos, dobrou os arames com alicate e eis que o balão começou a tomar forma. Conseguiu o papel e decorou todo o balão: uma linda obra feita por um guri de apenas oito anos.

Ainda restava o detalhe mais importante. Combustível, tocha e coragem para incendiar a chama que faria o lindo balão tomar os ares do pátio da casa. Como era de se esperar, foi veementemente vetado por Seu Bernardo. Nem pensar em brincar com fogo, ainda mais soltando um balão. Lucas ouviu um discurso que punha por terra quem sabe o maior sonho que tivera até os seus oito anos. Dessa vez nem Dona Ivone podia acatar aos olhos pedintes de Lucas.

Guardou aquele sonho até a idade adulta. Talvez seja por isso que dizem que o homem guarda dentro de si uma eterna criança. Um dia ouviu de uma moça o relato de um lindo balão que fora solto na praia de Capão. Um lindo balão de ar quente que foi tomando altura no escuro céu de Capão. Subiu muito alto e foi-se em direção ao mar. Ao relato da moça, Lucas via içado novamente um sonho que dormira por anos.

Ano novo...

Depois de uns 8 anos, pelo menos, passei a meia-noite do reveillon em casa. Sem tumulto, sem fogos e com uma - e tão somente uma - garrafa de champagne. Aos primeiros 15 minutos do ano corrente migrei minha euforia contida para a festa dos familiares do Fulano, no salão da SUR em Guaíba. Tinha pouca gente, quase que só os familiares mesmo, mas a decoração e a animação valeram. A decoração por conta do Telmo, que leva jeito pra coisa e a animação da sobrinhada do Fulano e por ele próprio, que brincava e dançava feito criança com a gurizada.

Uma virada de ano bem diferente das anteriores, mas que reforça a minha convicção de passar numa praia, com bastante agito, fogos e molhando os pés no mar.

Friday, December 30, 2005

Os velhos cartões

Lembro dos antigos cartões de final de ano. Feliz Natal e Próspero Ano Novo! São os votos de fulano e família. Lá em casa a gente comprava mais ou menos uns 30 cartões e endereçava a todos os tios e amigos mais próximos da família. Era engraçado.. passávamos o ano inteiro sem falar com tal tio, mas nunca deixávamos de mandar o cartão. Comprávamos muito aqueles confeccionados pelo próprio Correio, que já era cartão, envelope e selo, tudo junto. Eu ajudava a mãe a escrever todos os endereços.

Hoje, com o advento da internet, somos bombardeados com os mais diversos, enfeitados e musicados emails. Minha parcela saudosista – que é bem grande – lamenta a perda daquela prática. Era muito bom abrir a caixa de correspondência e ver ali um envelopinho com o nosso nome. Banalizamos, com o spam, a exclusividade.

Não vou lamentar. Afinal, quem não quer fazer o spam pode muito transcrever palavras próprias e endereçá-las a um único destinatário.

Mas que dá uma saudade de abrir a caixinha do correio, isso dá!

E assim me despeço desse ano maravilhoso que foi 2005, apesar das ausências de uns, a intensa convivência com essa galera louca preencheu cada minuto e cada momento da vida de cada um de nós.

Alegra-me saber que completamo-nos um ao outro muitas vezes sem saber. Por vezes estivemos nos mesmos eventos, mas quase não trocamos palavras. O simples fato de estar no mesmo ambiente era confortante.

Foi tanta coisa que aconteceu que seriam necessárias páginas e páginas pra escrever tudo. Fica na lembrança então cada momento desses, que guardamos como um filme.

Ora com música, ora sem
Um rápido movimento ou uma imagem congelada
A cena contracenada que não foi ensaiada
O sorriso do riso que virou gargalhada
Da falta de gasolina
Por sentar ao lado da menina
Ou por perder o trem

Deixamos nossa marca em tantos lugares.. Ano novo e enterro dos ossos em Atlântida Sul, Roxufest em Osório, pré Roxu em Salinas, churras e formaturas em Guaíba, Carnaval em Imbituba e Laguna, surf no Rosa, acampamento em Riozinho e Festa do Pijama no Portal do Eden. E também a Páscoa no Farol, Festival do Chopp de Feliz, Festa no Abbey Road de Novo Hamburgo e aniver do Marjo em São Chico. Sítio da Mel em Glorinha, minhas férias sozinho em Bombinhas, festa country-rock em Teutônia, e feriadão na Guarda do Embaú. Festiqueijo em Carlos Barbosa, a clássica Oktober de Igrejinha, o findi esticado na casa da Déia em Capão... nossa!

Lugares onde espalhamos intensa alegria e que certamente anseiam nosso retorno. Lugares que nos acolheram com toda sua hospitalidade e estarão sempre de portas abertas.

Um ano sem igual em que a única tempestade foi a forte e incessante chuva de amigos. Amigos estes que inundaram a minha e as suas vidas de alegrias, de paixões, de amores, de folias.

Que em 2006 esses laços se renovem e se reforcem. E se foi adorável o pouco que conhecemos, faço idéia do depois...

Finalizo com uma frase e uma mensagem que recebi de duas pessoas especialíssimas...

“Seu saldo é de 365 dias. Aproveite essa fortuna!”


“Pegue o estoque de PAZ que você ainda tem em casa
e use no trânsito
use na fila do banco
use no elevador
use no futebol!
A PAZ é um produto interessante!
Porque quanto mais você usa,
Mais você tem.
E se todo mundo usar
Quem sabe chegue o dia
Em que ninguém mais
Precise fazer um comercial
Pra vender a PAZ” (W. Olivetto)

Quando ouvirem o estampido da champagne façam um brinde comigo. Já disse a uma pessoa que verei seu sorriso, na hora dos fogos, a refletir numa estrelinha lá em cima.

Beijo! Feliz 2006!!!

Wednesday, December 28, 2005

Tereza...

Dagoberto tinha uma sina: não se dava com poodles. E nem era por medo de mordida, como tinha dos dobermans. Esses sim, metiam medo. Os poodles, apesar de parecerem frágeis, não eram bem-vindos ao Dagoberto. E olha que ele gostava de cachorro. Tinha lá seus guaipecas que apareciam perdidos no pátio da sua casa pedindo comida. Dava comida, banho e os adotava. Compartilhava com seus amigos da idéia que só os vira-latas que eram, realmente, fiéis ao dono. Faziam festa debaixo de qualquer tempo e acompanhavam o dono onde quer que ele fosse. Não se importavam se eram amarrados com corda de estender roupa ou ganhassem comida num pote velho de sorvete.

Essas coisas Dagoberto não via possíveis nos pomposos poodles que as madames desfilavam nas redondezas dos shoppings. Como podiam aqueles bichos ser mais perfumados e receberem mais atenção que muitos bebês? – se indagava. Mal sabia o Dagoberto que eles, os poodles, quando não iam com a cara de um estranho, não fechavam a matraca um minuto sequer.

Achava que a maior aproximação que teria com uma daquelas bolinhas de pêlo branco seria os do vizinho Meneguzzi. Talvez tenha sido por causa deles que Dagoberto desenvolveu essa antipatia. Todos os dias quando passava na frente do portão do Seu Meneguzzi, indo pro trabalho, era euforicamente ladrado pelos quatro cachorros neuróticos. Assim Dagoberto adjetivava um poodle: neurótico!

A culpa foi da Tereza. Tereza era a cadela da Mariana, uma velha amiga que morava ali no bairro. Só veio a saber da existência da Tereza no dia que a turma programou uma viagem pra um sítio em Viamão. Dagoberto e o amigo e grande companheiro Lucas Dias subiram no Ap da Mariana pra ajudá-la a descer com as bagagens. Antes de entrarem a Tereza já demonstrava a inimizade com Dagoberto. Ele sabia que ela estava latindo pra ele. O Lucas Dias sempre dizia que ia na casa da Mariana e nunca reclamou da tal cadela.

- Vem com a mamãe – dizia a Mariana, pegando a cadela neurótica no colo.

O bicho não queria nem saber. Driblava o pescoço da Mariana e, mesmo no colo, não parava de latir na direção do Dagoberto. Mal ela a largou no chão e a Tereza já se grudou na canela direita dele. Sorte que estava de calça. Mesmo assim ficaram os furinhos dos finos caninos no brim da calça do moço. E a Mariana era muito sua amiga, não poderia nem dar um chutão no bicho, numa provável segunda investida.

- Que estranho.. ela é tão mansinha! – se convencia a Mariana.
- Sei.. sei.. não é melhor prendê-la?
- Não precisa, ela não vai fazer nada, só te estranhou no início.

Não era o que significava aquele rosnado contínuo e baixinho que a Tereza produzia. Aquele rosnado que precede uma mordida. Pra pânico do Dagoberto, Lucas foi ao banheiro no instante em que a Mariana foi no quarto buscar a mochila de roupas. Ficaram na sala só os dois: Tereza e Dagoberto. Ele bem que tentou não aparentar medo, mas não conseguiu. Tereza veio devagar na direção dele. Rosnava.

- Mariaaaaana!! – chamava ele baixinho, pra que Tereza não percebessse que estava em apuros.
Mariana cantarolava do quarto, decerto colocando as últimas peças de roupa na mochila. Mulheres.. ainda devia ter um monte de cremes e loções que ela podia querer levar. O ataque de Tereza era iminente. Dagoberto suava frio. Chegou a pegar uma almofada do sofá de veludo marrom pra se proteger.

- Rrrrrrrrrrrrrrrrrr – Tereza não sossegava.

E nada do Lucas Dias sair do banheiro. Dagoberto estava perdido. Já podia sentir os dentes de Tereza ultrapassando o tecido da calça e cravando nas suas canelas. Cadela desgraçada!

Finalmente o alívio: Mariana apareceu no corredor com a enorme mochila. Como se tivessem combinado Lucas saiu do banheiro. Dagoberto poderia sair ileso, enfim. Mariana conferiu a água e a ração da Tereza. Água mineral e ração especial com proteínas e vitaminas. Só podia. Pegou a mochila de Mariana e foi em direção à porta. Lucas Dias saiu na frente. Ainda deu tchau afagando a cabeça da cadela – traidor! Mariana segurou a porta pro Dagoberto sair. Ele já podia avistar o corredor do prédio ensaiando um sorriso. Num passo com a perna esquerda passou a porta. Foi quando setiu, na direita que ficara pra trás um crã! Tereza abocanhou todinho o tendÃo de aquiles do Dagoberto. Não gritou, apenas parou. Mariana percebeu e deu um safanão de leve na cadela, que logo soltou.

- Bobinha ela, não sei o que houve!!!

Ninguém entendia por que Dagoberto não se dava com poodles..

Monday, December 26, 2005

Foiti-se...

Não vou reclamar do ano que termina, nem torcer para que acabe de uma vez.

Só tenho a agradecer por ter sido presenteado com tantos amigos novos. Não apenas companhias de uma viagem ou festa, pessoas que em pouco tempo demonstraram parceria para os moentos mais diversos, tanto bons quanto adversos.

Sem dúvida, as pessoas que conheci neste ano foi o meu maior presente, um presente sem preço, mas que carece muito cuidado.

O que peço, para o ano que se aproxima, é muita saúde pra que consiga sempre cultivar e preservar a amizade com cada um deles, apertando cada vez mais os nós do laço dessa relação com eles que são, como sempre digo: minha família.

E foi com alguns desses amigos que tive um dos Natais mais loucos dos últimos tempos...

A função começou na sexta, antes de eu ir pra formatura da Gre. Ganhei uma caixa de chocolates caseiros.. bah! Dá água na boca só de pensar.. O pior é que como eu ia pra formatura, não pude levá-los, e até agora ainda não os reavi. Mas estão em boas mãos..

A formatura foi bem mais tranqüila que eu imaginava. A Gre tava muito empolgada, e não era pra menos. Chegou discursando e dispensou atenção a todos os convidados, muito querida.

O sábado era o dia dele, do JC..

O primeiro presente que dei foi pra minha mãe: arrumei todinho o meu quarto. Atribuíram a chuva a esse fato. Feulas!

Como bom Raul que sou, ainda não tinha comprado os presentes dos meus sobrinhos. Eram 16h. Às 18h fechava o shopping e eu não tinha nem pensado no que compraria. Os alvos: uma praguinha de 5, uma peste de 12 e um atentado de 14. Brincadeira, são uns amores, mas muito arteiros.

Entrei na loja – quase vazia.. hehehe – e tentei olhar pra alguma coisa legal e barata. Imagem & Ação! Tá aí.. baita presente! Esse eu daria pro de 12: O Douglas, meu afilhado. Faltavam dois. Entrei na segunda loja e acabei escolhendo um quebra-cabeça de 750 peças pro de 14. Pra não sair da linha de presentes que instigassem o raciocínio, comprei um joguinho de memória em inglês pra de 5. De lambuja levei um jogo de varetas, que serviria até pra adulto jogar.

Tinha passado o dia todo em casa, queria ficar um pouco na rua. Liguei pro Fulano e fomos pra casa do Pitoko, dar início aos trabalhos.

Quando cheguei em casa já estavam todos me esperando pra dar início à ceia. Muita gente reclama do clima da noite de Natal. Duvido que alguém lá de casa reclame, é uma folia só. Minhas irmãs vão pra lá e passam o dia na função de decorar o lugar onde comemos, escondendo os presentes das crianças, minha mãe preparando o peru, a gurizada correndo no pátio e sujando a roupa.. nada é calmo, nada é monótono.

Depois do rango o amigo secreto e em seguida os demais presentes. Ganhei umas bermudas e umas camisas, tava precisando! O véio Noel se puxou.

Terminada a função, demos início à indiada mais louca que poderíamos fazer. Fomos pra Montenegro encontrar o Miojo, a Pi e a Lica. Eles sabiam iam apenas eu e o Chaka. Quando a Ka e o Pica souberam quiseram ir junto. E o Fulano já tinha dito que ia, mas que era surpresa.

Chegamos na frente do clube, já em Montenegro e ligamos pro Miojo, que foi nos receber. Quando apareceu viu a surpresa.. adorou! As gurias ainda não sabiam, e fizeram a mesma festa quando viram os outros três.

O público da festa era meio gurizada, mas fizemos a nossa festa e curtimos até quase de manhã. Do clube fomos pro posto Latina, onde ficamos ouvindo o cd da Pi com músicas do nosso tempo de criança.. He-Man, Uni-Duni-Tê, Superfantástico e Amigos do Peito.

Estávamos ali, bem tranqüilos, bebendo e ouvindo aquelas músicas de criança quando aparecem três jaburus.. hahahahhahaa quem as teria convidado????

Bah, e vieram retinho na gente. Não tivemos como esconder a admiração. Até que alguém lançou a sentença..

- Fulano, olha ali as tuas amigas!!!!

Hahahahhahahha, só podia ser ele.. conheceu as feias na festa e deve ter dito que iríamos pro posto. Coitadas das gurias, não demos muito assunto pra elas pra ver se elas se ligavam.. Como a gente estava em umas dez, doze pessoas, fingimos que nem notamos a presença delas. Depois do insucesso nas tratativas com o Fulano foram finalmente embora.

Pra evitar novas aparições indesejadas fomos pra beira do rio brindar com as champagnes. Ali vimos uma das cenas mais engraçadas da noite. A rua fica bem acima da margem, e tem uma escadaria até lá embaixo. E lá uma família pescando. Um deles, provavelmente um dos filhos, tava com uma camiseta: Turma 81.

- Olha lá o 81, não tá pegando nada! – observou o Fulano.
- É mesmo! - uns dois ou três concordaram.
- Vou lá dar uma de João-Sem-Braço. – disse o Fulano colocando os braços pra dentro da camiseta.

Hahahahahahahha.. muito engraçado! Foi descendo as escadarias até a margem com os braços escondidos dentro da camiseta e se aproximando do “81”. A gente se matava rindo lá de cima. Muito bom!

Assim começou o dia, já que amanhecia às margens do Caí.

Mal dormimos e fomos pro almoço na casa da vó do Miojo. Dona Eni. Apesar dos 79 anos, apresenta traços que revelam que foi uma mulher lindíssima quando jovem. O que se confirmou na chácara onde estava a família da Pi. Antes ainda passamos na casa da mãe do Miojo, que não deixou de contar algumas peripécias dele quando criança. Lá na chácara dos pais da Pi, a avó dela confirmou que dona Eni esbanjava beleza pelas calçadas de Montenegro. Mais: que fora a Primeira Dama mais linda que a cidade já teve. A avó da Pi cerrava os punhos quando falava dos belos cachos nos cabelos longos de Dona Eni.

Foram momentos em família muito bons, tanto na família do Miojo quanto na da Pi. Pessoas com ótimo astral e nos receberam como se fôssemos da família.

A próxima parada era a casa do Dani, um amigo do Miojo que também se divertiu muito com a nossa visita e até banho de piscina nos ofereceu. Maluco por maluco, o Dani ganhou dos pais uma pistola de água, a piscina da casa dele é uma raia e tem uma ema no quintal. Ema bicho!

O último evento da tour por Montenegro foi o aniversário da sobrinha do Miojo, a Maria Carolina. Uma graça! 6 aninhos. Muita criança correndo no pátio e a gente lembrando da festa da noite que passara.

Foi um dia de Natal que pareceu uns 3, por tantos lugares que passamos e tanta gente que conhecemos. Um dos melhores Natais. Não deixei de curtir a minha família e ainda tive o enorme prazer em conhecer as famílias dessas duas pessoas que entre outros tantos amigos, foram meu presente este ano.

Mais uma vez agradeço por esse presente que não tem preço. Essas pessoas maravilhosas que conheci e que a cada dia afirmam essa amizade e faz com que sejamos uma grande família.

Um forte abraço e um beijo com todo carinho a cada um de vocês!

Minhas fotos no