Thursday, April 27, 2006

Um véio magal...

Será que vamos guardar algumas de nossas manias mesmo quando formos bem velhinhos? Homem – via de regra – adora carro. Por motivos financeiros, não se vê mais tantos carros esportivos, roncos de motores, aceleradas.. o que se vê é a magaleada enfiando aerofólios e spoilers em carrinhos de passeio e um clip de funk no dvd poluindo os ouvidos alheios. Antigamente era tri comum Opala 6 cilindros ou Maverik de 6 ou até 8 cilindros e seus roncos inconfundíveis. Um carro do mesmo porte hoje, como um Omega ou Mustang, é privilégio de pouquíssimos, muitas vezes em idade avançada que não querem mais saber de exibir os roncos dos motores.

Pois não é que hoje vi um Maverikão 4 portas novíssimo. Inteiraço mesmo. Branco, rodas originais, tudo original, aliás. Pilotando? Um senhor.. beeeem velhinho! Vestia um casaco Gabardine creme. E o que ele fazia? Acelerava! Brllrlrlrlrlrllruuuuuummm.... E mais.. Balançava o carro enquanto acelerava, segurando no freio de mão. Bah, daí eu não acreditei! O véio parecia um guri brincando de acelerar e balançar o carro na sinaleira. Muito engraçado! Claro, se fosse um gurizão eu ia chamar de magal. Mas achei engraçado. Será que eu vou brincar de enfiar a mão na boca aos 76?

Eu tenho um ímã pra veado...

Olha, num breve exercício mental lembrei de alguns episódios. Pensei logo em outra coisa pra não virem mais e más recordações. Já até publiquei uma delas (22/06/04), que foi aquela em que um magrão me convida pra dividir uma cerveja e eu, ingenumente, aceito. Aí ele me convida pra sairmos do balcão e sentarmos numa mesa, que ele tinha tudo o que eu queria.. fala sério!

Noutra ocasião eu e uns colegas de serviço estávamos saindo ali do Bauru e Cia, na Demétrio e indo pegar o carro na Espírito Santo. Eua ia na frente e os guris logo atrás. No sentido contrário vinham dois senhores, já de cabelos brancos, um deles com um blusãozinho rosa bebê sobre os ombros e brincos dourados nas duas orelhas. Ao passar por mim, falou: “Ui.. meu gaaaaaalo!!!” Eu inventei de perguntar “O quê?” e aí sim.. “Te chamei de meu galo, ué!!!”. Acabou totalmente com a minha reputação entre os colegas.

Vou puxar só essas duas do arquivo, tá mais que bom.

Mas aí tô eu no Azimute, bem tranqüilo, eu e dez gurias. Pra não dizer que era só eu de homem tinha o namorado de uma das gurias. Aí fui no bar buscar uma cerveja. Me escorei no balcão e fiquei esperando o garçom me atender. Tava bem cheio, muita gente no bar. De repente senti uma assoprada quente e contínua no pescoço, muito de perto. Imaginei logo, não se tratar de uma mulher. Mas fiquei frio, nem ohei pro lado. Mas aí veio de novo.. mais demorado ainda.

Eu odeio briga, ainda mais em bar. Em lugar nenhum, pra falar a verdade. Sou tri cagão. Olho roxo e cara esfolada não são pra mim. Mas eu precisava tomar uma atitude. Tomara que eu não tivesse que brigar, mas se tivesse, azar! Vierei-me e olhei bem pra cara do marmanjo. Nem cara de veado tinha.

- Tu tá com algum problema? – já falei pensando que ia ter que enfiar a mão na cara do infeliz.
- Não, por quê? – bem cara de pau!
- Não mesmo?
- Não..
- Então tá.

Voltei-me ao balcão e pedi a cerveja. Ele não fez mais nada. Pode não ter sido a atitude de muitos, mas achei a mais sensata pra que o veado visse que eu não tinha gostado e sem causar tumulto no bar.

Contei pras gurias e elas deram risada! Uma delas até perguntou como era o figura. Quando o descrevi ela disse: “eu sabia!”. Diz ela que entrou no bar, olhou pro magrão e deduziu: é!

No dia seguinte voltamos ao Azimute. E quem encontramos? O tal! Bah.. quando as gurias me mostraram vi ainda que ele tava me olhando, talvez reconhecendo da noite anterior. Curtimos a noite tranqüilamente, sem percalços. Ele ainda conversou com uma de nossas amigas, dizendo que tinha adorado seu perfume. Ela respondeu que tinha versão masculina. O que ele disse? Que tinha gostado era daquele mesmo! Quando descemos pra ir embora faltava uma das gurias. A Sandi. Uma das nossas amigas prontamente disse que subiria novamente pra chamá-la. Voltou toda se rindo.

- O que houve?
- (ela não parava de rir)
- Fala, mulher!
- (risadas)
- Já sei, ela ficou com o veado!
- ... (balançou a cabeça positivamente, rindo muito)

Bah, quando contei o episódio do bar pras gurias, essa nossa amiga não tava. O pior, depois, foi agüentar as piadinhas das gurias de que ele só tinha ficado com a Sandi pra se aproximar de mim. Pode? Hahahahahahahaha!!!!

Monday, April 24, 2006

Meus parabéns!!!

Eu tinha dez anos e nunca tinho ido a um velório. No dia de finados sempre íamos no cemitério de Canoas, onde estavam os túmulos de dois avós. Mas a enterros e velórios ainda não.

Aos dez anos eu tava na quarta série e tinha aulas de português com a tia Carla Lemos, que era nossa vizinha. Um amor de pessoa. Antes de eu ser seu aluno vivia indo à sua casa brincar com um coelho que ela tinha. Grande, branco e com os olhos bem vermelhos. Depois que passei a ser seu aluno não quis mais ir lá brincar com o coelho. Talvez tenha estabelecido no meu subconsciente uma relação de distância professor/aluno.

Nesse mesmo ano, o marido da dona Carla tava com uns problemas financeiros e deu uma sumida. Todos achavam que ele ia procurar algum tipo de ajuda, pedir dinheiro emprestado, sei lá. Mas simplesmente sumiu e não deu notícias. A dona Carla que tinha qiue se virar desdobrando os credores que não paravam de aparecer, além de não saber mais onde procurar o marido.

O desespero foi tanto, que ela mandou um de seus filhos à praia, ver se ele não tinha ido se exilar na casa que tinham em Capão. Naquela época não tinha celular, as informações demoravam bem mais pra chegar. No final do dia, finalmente, a notícia de que o Seu Heitor realmente tinha se recolhido à casa de Capão. E lá, num ato de profundo egoísmo e falta de humildade pra pedir ajuda, cortara os pulsos. Deixava assim, além de todas as contas, a dor tatuada na mulher e nos três filhos.

A comoção lá na rua foi geral. Todos trataram de consolar Dona Carla e seus filhos. Depois de um tempo, a família conseguiu reverter a situação financeira e até hoje vivem muito bem. Aliás, a casa da Dona Carla é a mais simpática de toda a rua. Mas ainda tinha o velório e o enterro do Seu Heitor, que foi lá no João XXIII.

Minha mãe era muito amiga da Dona Carla. Mas meu pai não quis acompanhá-la no velório. Aí ela me convidou. Fomos com um vizinho, o Seu Fernando. Era uma noite chuvosa e fria de uma quarta-feira de agosto. Desci correndo do Del Rey do Seu Fernando e me abriguei embaixo de uma marquise. Nunca vi tanta gente lá da rua reunida. Minha mãe me deu a mão e nos aproximamos da capelinha onde acontecia o velório.

Tinha uma fila enorme de pessoas que chegavam até a Dona Carla, falavam baixinho no seu ouvido, abraçavam-na e saíam. Resolvi que ia entrar na fila e acompanhar a minha mãe. Fiquei à frente dela. Só que tinha um porém: eu Não sabia o que se dizia a uma viúva numa hora dessas. E não quis perguntar à minha mãe. Ah, e eu era a única criança presente. Fiquei ali, quietinho na fila esperando a minha vez. Tentava escutar o que diziam, mas não tinha como.

Faltava só uma pessoa, o Seu Agostinho. Foi lá, sussurrou, deu um abraço e saiu. Era a minha vez. Eu já estava um pouco tremendo pelo frio que fazia. Não tinha a mínima idéia do que se falava naquela ocasião. Me aproximei. Dei os quatro passos que separavam o primeiro da fila até a poltrona da Dona Carla. Abracei-a, puxei ar pra pegar um pouco de fôlego e soltei, de uma só vez:

- Meus parabéns!

Wednesday, April 19, 2006

Herança de mãe...

Minha mãe não sabe, mas ela me deixou uma herança em vida que dinheiro nenhum paga. Na verdade fiquei procurando uso pra essa palavra que só ouvi sendo pronunciada com naturalidade nas novelas da globo nos idos de 80. Nessas novelas em que marmanjos como a Lucinha Lins e o Cássio Gabus Mendes tratam os pais por mamãe e papai, que meiguinho. Pois nessas novelas se falava muito em herança.

A herança a que me refiro, que minha mãe me deixou na infância e que só me dei conta há alguns dias, não tem dólares, nem apartamentos, nem sítios nem haras – aliás, haras é outra coisa que só vi em novela – é uma coisa muito mais simples: me chamar lá do pátio, quando eu estava brincando, pra tomar o café da tarde...

- Raulziiiiiiiiiiiiinho!!! – gritava ela da cozinha.
- Quêêêêê.. mããããe...??? – eu respondia, invariavelmente brincando com meus Playmobil
- Vem tomar café!!!

Na verdade eu já sabia, porque o cheirinho do café passado percorria todos os cantinhos do pátio e invadia até as cozinhas - desprovidas de minha mãe - dos vizinhos, que não se continham e davam uma espiadela por cima do muro, sempre fazendo um comentário..

- Passando um cafezinho, Dona Nair?
- Tô.. daqui a pouquinho minha filha chega do colégio e gosta de tomar um café..

Falavam isso por cima do muro, muitas vezes sem ver umas às outras. Quem mora em casa tem dessas coisas. E era bom aquele café. Posso dizer que até hoje é, mas o segredo estava nas guarnições. Elas é que são minha herança. Naquele tempo o pão não era esse cacetinho amassado que comemos hoje. Era pão de meio e pão de quarto, que o seu Herny, o italiano do armazém, vendia quentinho. Minha mãe servia o café com leite na minha caneca de porcelana, um hábito que tenho até hoje, e cortava o pão de meio, ainda quente, em fatias de dois dedos, e passava a manteiga da Corlac, aquela do papel dourado.

Eu arregalava os olhos pra manteiga que se derretia em cima da fatia do pão e assoprava o café pela borda da caneca pra não queimar a língua. Isso quando minha mãe não inventava de fazer um bolo de laranja, que igual nunca vi. Até hoje o velho pé de laranja ornamenta o nosso pátio e colore-se de laranja em setembro. Minha diversão era colher as laranjas com um artefato de madeira com uma lata de nescau na ponta e depois, fazer delas o suco para o bolo. Lembro que ela dava o toque final no bolo com uma calda de laranja por cima e as raspas da casca que perfumavam toda a casa.

São essas coisas que nenhum hotel de luxo, nenhum restaurante mais requintado, nem mesmo os cafés coloniais de gramado vão conseguir reproduzir. Existia toda a mística que envolve uma criança que brinca no pátio com seu Playmobil e terá o maior prazer em interromper o seu brinquedo, porque tudo o que a rodeia é amor, desde o seu lar, a sua mãe e tudo o que ela faz.

Monday, April 17, 2006

Uma Páscoa com a família que a gente escolhe..

Depois do Carnaval, o evento mais esperado por todos é um só: a Páscoa. Mas não a Páscoa assim.. como é que eu vou dizer? Aquela loucura toda que se sucedeu lá pelas bandas de Jerusalém há dois mil anos e lembrada até hoje como uma das maiores histórias de amor já ocorridas. Todo aquele sacrifício, todo aquele sangue, toda a entrega, não são suficientes pra fazer frente aos coelhinhos de chocolate e todos seus ovinhos. Mesmo sem saber explicar a relação de um coelho com a Páscoa e muito menos da relação do ovo com esse coelho, a indústria do chocolate, nessa época, é mais promissora a cada ano. Ainda que o mascote achocolatado fosse trocado por uma galinha grávida, garanto que em pouco tempo o sucesso seria obtido.

Isso é só uma observação. Eu faço a minha parte nesse sucesso todo do chocolate. E quanto à história do JC na cruz, apenas lembro, nenhuma atitude mais cristã. Uma coisa que sempre procuro fazer é passar esse momento com o maior número de amigos possíveis. A galera sempre se agiliza pra uma trip na praia ou um acampamento, seja nos canions de Cambará do Sul, na Cascata do Chuvisqueiro ou às margens do Paranhana em Três Coroas. Qualquer lugar é lugar quando se quer curtir um fim de semana entre amigos.

Assim foi a Páscoa deste ano. As propostas iniciais eram muitas, desde o Forte Santa Tereza, no Uruguai até a praia da Pinheira, em SC. Depois de lotar a caixa de emails com discussões se íamos pra cá ou pra lá, acabamos optando pelo camping de Três Coroas. E isso só foi acontecer na tarde de quinta. Chegamos até a pensar em desistir, pelas desistências, mas como não é número que faz uma indiada acontecer, prosseguimos. Eu ia fazer uma indiada à parte, mas fui interceptado.

Pra garantir lugar nos carros, que eram poucos, saí do trampo correndo e comprei uma passagem pra Três Coroas para as 20h de quinta. Fui pra casa organizar as coisas e partir logo. Às 18:10, extamente, entrei em casa. O Plano: até 18:30 arrumar a parte das roupas e até às 19h os outros utensílios: lonas, cordas, fósforos, fogãozinho, panela, bola.. e tudo mais que se pode usar num camping. A barraca tava na casa de um amigo. Eu iria de táxi de casa até a rodoviária, passando na casa desse amigo pra buscar a barraca. A idéia era de eu chegar na rodoviária de Três Coroas e ficar esperando a galera num boteco qualquer.

Eu tava bem tranqüilo dobrando uma camiseta amarela e ajeitando-a na mala quando vi as horas. PQP!!! 18:50h E eu ainda não tinha nem tomado banho. Bah, passei voando embaixo do chuveiro e tratei de arrecadar tudo o que eu via pela frente.. isqueiro, cordinha, lâmpada, violão, rádio,... entrei no primeiro táxi que vi e dei o destino.

Parênteses: o tiozinho motora do táxi tinha mais tique que louco de porta de hospital. Se remexia todo no banco e dava uns solavancos pra arrancar o carro. Uma hora virei pra ele e fiquei olhando sério, como perguntando se ele tava com algum problema. Parou de pular na hora. Ainda quis dizer que acampar na Barra do Ribeiro e Magistério seria mais interessante que Três Coroas... tsc tsc tsc

No caminho pra casa do meu amigo recebi a ligação da Ro, que já saiu dizendo:

- Não compra passagem!
- Como assim?
- Não compra, a gente vai junto. Aí tu vai com a gente!
- Bah, que show! Eu já comprei, mas tudo bem. Guardo-a de recordação.

Parei no Bourbon e fui comprar as coisas que faltavam, esperando eles chegarem, ela e o Scooby. Dali em diante foi só tranqüilidade. Lá no camping foi aquela função de sempre.. escolher lugar pra colocar as barracas, retirar as pedras* que estorvavam, catar tocos pra fazer a fogueira, procurar tomadas pra luz...

* Esse lance das pedras foi engraçado. Achei o lugar ideal pra colocar a barraca, mas tinha uma pedra de tamanho considerável incomodando. Passei uma meia hora escavando na volta e me matando pra tirar a dita cuja dali. Ficou um baita buracão. Montei toda a barraca e no fim, a surpresa: o buraco tava longe da barraca. Não faria diferença nenhuma se a pedra ficasse ali.

O segundo carro chegou no meio da madrugada agitando todo mundo. Era a primeira noite de uma Páscoa muito divertida no meio do mato. No sábado jogamos futebol com uma gurizada que tava acampada por lá, entre eles um magrão com a camiseta do MST. Os guris o apelidaram na hora de "Zé Rainha". Foi muito engraçado, e serviu de inspiração pra uma boa sessão de risadas na manhã seguinte. O Rodrigão puxou a seqüência de frases, e nós demos continuação..

- Quando o Zé Rainha pegou a bola teve um latifúndio pra trabalhar!
- Hahahahahhahaha
- Zé Rainha só queria saber de invadir a área!
- Hahahahhahahha
- Zé Rainha entrou impedido!
- Hahahahahahhaha
- Eu vi: Zé Rainha amanheceu acampado na área do campo!
- Hahahahahahhahahaha
- Zé Rainha orientava sua equipe: nada de marcação homem a homem, a marcaçao deve ser por área!
- Hahahahahahahahahahaha

E assim foi.. como é bom rir de qualquer besteira. Aliás, esse foi um dos pontos marcantes do findi: diversão. Tudo era motivo de graça, de riso. Na sexta giramos horas na cidade em busca de peixe, mas tava tudo fechado. Acabamos num pesque e pague, onde fomos muito bem recebidos pela família que almoçava. Ficamos ali de papo e acabamos comprando um peixe de 8kg. Eles foram tão receptivos que nos deram os peixes que não tinham comido, assim como a salada de maionese. Tiveram todo o cuidado em dizer que não se tratava de sobra, mas que já haviam comido e não tinham mais fome. E nem precisava, os peixes e a salada estavam numa travessa sobre a mesa, ainda quentinhos. Momento ímpar!

Imagem & Ação

Quem já jogou sabe que esse é um dos molhores jogos que já foi inventado, ainda mais quando se joga regado a ceva, caipira e vinho. Caneta e papel, inspiração pras mímicas, divisão dos times.. e lá vai! Pode virar a ampulheta! Olha.. o jogo era pura risada! Saía cada desenho, cada mímica que nos mijávamos de rir.. mas uma carece de menção honrosa:

- Tá, eu vou desenhar.. - disse o Scooby
- Tá, vai lá então, pode começar?
- Pode. - viraram a ampulheta.
- ... (ele desenhando.. parecia uma forca)
- FORCA!
- ABAJUR!
- Faz outro desenho!
- .... (outro desenho... igual!)
- SAMAMBAIA! - HAHAHAHAHHAHA
- QUE PUTARIA É ESSA?
- FAZ OUTRO DESENHO, VAI ACABAR O TEMPO!
- ... (ele circulava aquilo que pareciam um monte de samambaias)

O tempo acabou. O time das gurias vibrava. Mas o que seria aquilo? Então ele revelou, pra espanto geral, inclusive das gurias:

- Um Laboratório, oras - falou na maior cara de pau!

Mau Deus, aquilo não era laboratório nem se tivesse legenda. Ele ainda tentou fazer um bonequinho ao lado, do tamanho daquilo que era pra ser um microscópio. Depois a ampliação da lâmina, que ficou parecendo um prédio.. olha.. sem comentários. Vou scanear e colocar aqui o desenho, aguardem!

Depois de tudo, só o que tenho a fazer é agradecer por um final de semana tão especial, sem todos os amigos que eu gostaria, mas onde cada um dos que foram fizeram encher cada minuto. Todos se divertindo com todos, sem máscaras, sem incompatibilidades. E se a paixão de JC não foi mais lembrada que os chocolates, com certeza a vivemos um pouquinho, na partilha do peixe, na ajuda pra montar e desmontar as barracas, na humildade em aceitar o peixe daquela família, e, principalmente, por fazer acontecer algo que estava quase morto. Ainda que com poucos integrantes, deixar marcado um evento que foi aberto a todos, sem restrições.

Monday, April 10, 2006

Trilha sonora...

Tenho uma estranha mania de associar músicas a filmes. Quem me conhece sabe: basta alguém cantarolar uma melodia, ou ouvir um trechinho de uma música quando se troca de estação no rádio e eu já lanço..

- Tu viu esse filme?
- Qual? – as pessoas perguntam.

Aí entra a minha indignação. Além de eu querer que todos tenham visto os mesmos filmes que eu, quero que tenham decorado a trilha sonora de cada um deles.

- Apocalipse Now! Vai dizer que tu não viu!!!!?
- Não. Não vi.
- Bah.. tens que ver!

Então tento convencer a pessoa de que ela precisa ver o tal filme. Invariavelmente é assim. Ontem mesmo.. dois dos meus sobrinhos estavam lá em casa. Faziam arte por toda a casa: espalhavam a areia que o pai comprou pra terminar a reforma dos fundos, jogavam água nos cachorros, subiam na grade do portão.. essas coisas que guri faz. Mas um deles, o Mano, tem um viés pra música. Toca violão. E pior que toca direitinho!

Vendo o guri tocar me encorajei e fui pro teclado com os dedos bastante enferrujados. Mas consegui brincar com a Blowers Daughter, do filme Closer – Perto Demais. Tanto que minha irmã ficou me assistindo à porta, e pediu que eu ensinasse o Mano a tocá-la no violão.

Já fui logo falando do filme:

- Ah, tu viu esse filme, então?
- Não, qual? – tri boiando, ela!
- Closer! – numa entonação de obviedade.
- Não..
- Closer, perto demais
- Não, não vi. Com quem é? É bom?
- Ah deixa.. é bom, uma hora tu pega pra ver.

Me caiu a ficha, então, de que ela entendera como sendo a música do Seu Jorge com a Ana Carolina.. “É isso aí”.

É isso aí, às vezes tenho uma vontade de ter um cinema e passar para os meus amigos todos os filmes bons que já vi.

Boa semana a todos!

Thursday, April 06, 2006

Distantes...

Ainda eu fique sem palavras. Ainda que eu fique sem jeito. Nem sei se vou saber te olhar. Só sinto algo estranho no peito enquanto conto as horas. A cada dia que passa repenso se devo ou não ir ao teu encontro.
Aí encontro o ombro dos amigos, e neles o incentivo a não desistir. Depois de tanto tempo não há mais motivos para protelar. Não há porque esperar uma oportunidade. Hei de fazê-la. Desenraizar os pés da comodidade e regar com um abraço apertado os campos de um laço fraterno que outrora fora esquecido.
Não haverá mais, então, essa falta, mas sim o compromisso de não deixar esse nó soltar-se novamente. E noutro abraço selar-se-á, agora, a saudade.

Manias internérdicas

Nerd porque, por eu achar que essas coisas remetem a pessoas muito ligadas num troço, não necessariamente nos estudos. Me refiro a emoticons do msn e comunidades do orkut, pra não espraiar muito. Não vou dizer que dá raiva ou que odeio, mas é um saco tentar manter uma conversa no msn cheio de “Ois” piscantes, “bom dias” cheios de estrelinhas com um passarinho em cima do B, tendo que entender que um bonequinho andando na tela é um “vou”, e uma casinha esquiita é a própria casa. Tem pessoas que conseguem escrever uma grase sem que apareça uma única palavra crua, só desenhinhos. Eu acho legais muitos emoticons, mas uns criativos, usados vez lá que outra. Indiscriminadamente assim, não. Fiquei de cara esses dias que fui escrever alguma palavra que tinha “lamb” no meio e me apareceu uma vaquinha dando um lambida! Aí tive que trocar pra maiúsculo.

Outra coisa que eu não entendo são essas comunidades de “Eu sou fã do fulano..” Pior, o convite enviado pelo próprio fulano! Hahahahhahahaha O orkut já tem aquela paradinha de classificação pra colocar quem são teus fãs. Tá mais do que bom. Agora uma comunidade.. dá licença! Até tenho nas minhas comunidades uma de fãs do Décio. Mas o cara é o cara, se tiver 18 comunidades com o mesmo nome entro em todas. Agora os reles mortais.. deleto! Hehehehe..

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Amansa burro: o textinho ali de cima fiz para um amigo que não vê a irmã há alguns anos.

Tuesday, April 04, 2006

Numa madrugada, num quarto frio...

Aos amigos recorri quando fui tomado pela falta de tudo, apesar do tudo que me era oferecido. Era uma manhã de atípico frio de março e a noite anterior fora marcada pelo medo de caminhar algumas quadras numa rua de poucas casas com a iluminação falha. Na lembrança as mesmas risadas inéditas dos mesmos amigos surpreendentes como companhia. Naquela noite, ao contrário das outras, havia me deitado cedo. Não sei ao certo que horas eram quando duas sensações insuportáveis me acordaram e ao mesmo tempo me prenderam à cama. As poucas horas que passaram desde que adormeci serviram pra fazer os rins trabalharem e preencherem todo o volume da bexiga; e o cair brusco da temperatura não fizeram conhecimento do fino lençol que me cobria.

Uma imensa força não foi suficiente pra conseguir abrir os olhos. Estaria ainda dormindo enquanto o corpo sofria aquelas sensações desconfortantes? As forças então foram usadas pra tentar acordar com o auxílio do corpo que tremia sem parar e das pernas unidas uma à outra pra não molhar a cama. Os olhos, enfim, se abriram. Mas o corpo insistia em tentar abraçar mais o fino lençol em vão. Parecia que o frio aumentava. Recobrei o tino e me levantei. Notei que a janela ficara aberta e por isso uma brisa muito fria invadia o quarto naquela madrugada. Fui ao banheiro e depois estendi o cobertor que hibernava no roupeiro. Enrolei-me feito um lagarto no casulo e adormeci, permanecendo assim por mais umas cinco horas.

A manhã já se fazia quente novamente e alguns raios de sol faziam fachos de luz por entre as frestas da veneziana culminando em algum desenho estranho na parede, próximo à tomada. Em vã tentativa de decifrá-los refletia sobre tudo o que estava ao meu redor e como eu estava me sentindo em relação a essas coisas. Foi então que percebi que minha agenda mental não era suficiente pra dar conta de tantos afazeres, tantos amigos, tantos sentimentos conflitantes, tantas coisas pra dizer, mas nenhuma palavra pra expressar. Uma vontade de fugir e uma saudade de ficar. Pensamentos, sensações e sentimentos dúbios, reversos, imersos num mar confuso e turbulento.

Se as coisas não fossem amarradas seriam muito mais fáceis. E não teriam nenhuma graça. Tudo causa, tudo implica. E como tudo que nos satisfaz plenamente depende de alguém, tudo o que fizermos repercutirá uma reação. Boa ou ruim. Às vezes ruim sem que tenhamos vontade de que acontecesse assim. Às vezes boa demais sem que desejássemos que acontecesse assim. Digo que depende de alguém porque posso achar que me satisfaço plenamente com o sol que nasce no horizonte do oceano, mas logo preciso compartilhar esse momento. Tudo o que sentimos passa por uma necessidade de ser exposto.

Talvez a dor seja guardada. Por vezes é. Talvez por querer preservar a reação de quem está próximo a nós. Já o riso geralmente é exposto e quer ser muito compartilhado. Intensificado se for possível. Mas nesse momento eu estava só. Eu, o fino lençol, o cobertor que me salvou, o desenho feito pelo sol na parede e todo o universo do meu quarto. Nada podia ser compartilhado, nem mesmo um sorriso que não aconteceu. Nem mesmo uma lágrima. Nem o calor do corpo que agora não mais precisava se cobrir. Nem o brilho dos olhos nem o quente dos lábios.

A vida toma sentido pela esperança de que nada disso transborde e se perca. Que nada disso vá embora, apenas acumule. Até mesmo a dor, porque ela valorizará a vitória de cada batalha. Mas que principalmente se acumule os sorrisos que provocarão outros, as lágrimas que farão chorar outros olhos, o calor do corpo, que junto a outro parecerá febril, o quente dos lábios que em outros lábios.. braços estarãoa eriçar e olhos a se fechar, olhos que destes que brilham.. por estes se farão perder.

Thursday, March 30, 2006

Minha mãe bebe e perde os critérios...

Faz horas que não falo sobre minha mãe. É uma pena, principalmente pra ela, que o que tenho a contar não lhe seja muito favorável.

Meu pai é um figura muito conservador e nada festivo. Não tolera palavrões, mau comportamento das crianças, música alta, conversas esticadas no telefone, bebedeiras e nem chegar tarde em casa. Tirando o “chegar tarde em casa” e “música alta”, nada do resto eu pratico em casa. É certo que meus tragos deixam vestígios por horas depois que eu acordo, mas lá em casa não bebo um gole sequer. Deixo meus eventuais palavrões pra rua e, se possível, mantenho o bom comportamento.. hehehehe

Quem acaba sofrendo o pênalti é minha mãezinha. Dona de um vasto vocabulário chulo, uma queda significativa por umas geladas a qualquer hora do dia e que, se pudesse, vivia fazendo palhaçadas pra alegrar quem está por perto, tem que “se comportar” em casa. Mas ela é feliz, o que importa pra Dona Anair é ver a casa sempre em harmonia. Seu Antônio, por mais que tudo ande na boa, tá sempre reinando com alguma coisa. É só não ligar que ele logo se aquieta.

Já disse aqui que ele vai pra praia só depois que todos já foram e começa a bater a saudade. Pois é.. por conta disso minha mãe deita e rola lá na praia. Todos os dias do verão me ligava pra contar das suas peripécias. Das quais, uma delas me deixou consideravelmente chocado.

O sapo..

Nossa casa da praia fica a cinco quadras do mar. Há poucas casas construídas por perto. Alguns cômoros de areia e um que outro banhado de água da chuva, o que atrai bastante os sapos, que vivem invadindo a casa em busca de insetos.

Ainda era de manhã quando minha mãe e minha irmã foram no mercadinho buscar umas cervejas pra tomar durante o dia, coisa que não acontece aqui em Poa. Aqui, duas garrafas durante o almoço bastam, não importa quantas pessoas estejam à mesa. Assim passaram o dia. As crianças brincando nos cômoros de areia e elas se gelando e rindo. Almoço preparado regado a cerveja e, logo depois, uma soneca.

No final da tarde elas voltavam a dar início aos trabalhos, mais umas geladas, as crianças correndo e gritando nos cômoros.. todos felizes.

Minha mãe tem um sério problema de incontinência, tanto urinária quanto... deixa pra lá. Ainda era de tardezinha quando ela, já bem embalada pelas cervejas que tomavam, sentiu que pre-ci-as-va ir ao banheiro. Como os sinais eram adversos, resolveu que ia no dos fundos. Como além de adversos, os sinais eram de extrema urgência, resolveu dar a volta por fora da casa. Levantou-se de fininho e deu início à empreitada de chegar ilesa ao banheiro e, enfim, aliviar-se. Sentiu que uma forte pressão a forçava a não mais prender uma nádega junto à outra. Mas recém havia passado pela primeira janela. Ainda restavam duas.

Enquanto isso as crianças continuavam brincando e minhas irmãs bebendo e rindo, lá na frente. Na última curvinha que antecedia o banheiro, o inevitável... Minha pobre mãezinha não se conteve e.. como vou dizer? Isso mesmo que vocês estão pensando! Antes mesmo de entrar no banheiro, como todos estavam lá na frente, tirou as calças premiadas e largou no tanque. Terminou o serviço no vaso e tomou um banho. Ainda tonta, colocou uma roupa limpa e voltou lá pra frente com as gurias, que não desconfiaram de nada.

À noite minha sobrinha se preparava pra ir com as amigas pra boate, enquanto minha mãe, agora limpinha, e minhas irmãs lá.. se gelando e dando uma olhada na gurizada. Prepararam a janta, assistiram TV e foram dormir.

Já de manhã, minha sobrinha voltou pra casa, lavou o rosto e foi dormir, enquanto todos acordavam. Levantou-se um pouco antes do almoço, já reclamando:

- Que droga esses sapos! Tão por toda parte! – resmungava com voz sonolenta.
- O que foi, minha filha.. te incomodaram? – Consolou minha irmã.
- Ahhh.. cheguei e fui lavar o rosto ali no tanque. Tinham umas roupas da vó. Eu tirei pro lado e tinha um baita dum sapo! Eu joguei água nele, mas ele não quis sair.

Todos entreolharam-se. A essa hora o tanque já havia sido limpo, e o então sapo, retirado.

- TALIIIITHAAAAAA!!!! – gritou minha outra irmã.
- É.. eu jogava água nele e dizia: “Sai, sapo!” mas ele não saía. Aí lavei o rosto e fui dormir.

Acho que já estava na hora de o meu pai aparecer...

Monday, March 27, 2006

Ele sabia das coisas...

Certo que ele tinha engolido uma enciclopédia, o Maurício Kroef. Certo! Eu era estagiário numa empresa de relógios-ponto eletrônicos pra concluir o segundo grau. O Maurício fazia estágio de engenharia, pela UFRGS. Engenharia Elétrica na UFRGS, o curso mais temido entre os espinhentos estudantes de eletrônica e afins do segundo grau. E o Maurício já estava lá, com conhecomento profundo sobre todas as coisas que conversávamos, em meio aos testes nas plaquinhas dos relógios-ponto.

Tinha horas que eu parava tudo e pensava: o cara só pode estar de sacanagem! Ele deslanchava a falar sobre a invasão russa à Auschwitz, em 45, travando batalha com os alemães. E falava aquilo com uma riqueza de detalhes que impressionava. Em seguida passava a falar de algum esporte, lembrando o medalha de ouro no lançamento de dardos nas olimpíadas de 68. Eu tentava passar para algum esporte mais popular, como futebol, mas aí ele vinha com a escalação completa da seleção olímpica do mesmo ano.

E olha que ele não era nerd, ao menos não parecia. Vivia falando das boemias com os colegas da engenharia nos bares da Cidade Baixa e das aventuras amorosas que passava. Mulheres das mais interessantes que conhecia na noite e acabavam enroscadas nos lençóis do seu apartamento. Eu ouvia aquilo admirado, com as mãos no queixo. As histórias que ouvia dos guris do colégio não passavam de uns amassos nos corredores do Parobé.

Um dia Maurício chegou com uma questão intrigante: que quando o cara tá muito apertado, muito apertado mesmo, a sensação de alívio ao urinar chega a ser melhor que a do gozo. Não pode! - Eu pensava. Não lembro muito bem, mas se não me engano, na época eu ainda não tinha experimentado tal prazer, o de atingir o clímax do orgasmo com uma mulher. Quem me dera! Mas era, sem dúvida, o que eu mais anseava. Agora ficar apertado eu já tinha ficado um monte de vezes, e até sabia que a sensação era maravilhosamente boa. As últimas gotas até vinham acompanhadas de um “Ahhhhhhhh....” Mas aquilo não podia ser melhor do que gozar, não podia.

Anos depois, já tendo passado por algumas aventuras carnais, lembrei da questão do Maurício. Esperei até a primeira festa, onde seria mais provável eu ficar apertado. O problema era que eu nunca conseguia reunir as duas sensações na mesma noite. Uma porque eu não era louco de ficar apertado e não ir ao banheiro, caso tivesse um por perto. Outra porque não era toda hora que se conseguia ir pra cama com uma mulher. A dúvida foi tomando conta de tudo o que eu queria saber.

Finalmente chegou o dia. Estava numa festa ali na Cristóvão. Elektra, acho que era. Os espelhos dos banheiros eram vazados e podia se ver quem estava no espelho do outro lado, no feminino. Ali o pessoal trocava olhares e, se fosse de interesse mútuo, encontravam-se depois na pista. O problema é que o banheiro era sempre muito cheio. Na última vez que fui ao banheiro, já bem apertado por conta da cerveja que tomávamos no balcão, pintou um desses olhares com uma menina do outro lado.

Já de volta ao balcão, eu ficava tentando achá-la na pista. Ela estava perto da parede oposta, me olhando. Fui até lá. Mal nos cumprimentamos e logo nos beijamos. Foi um beijo longo, bom, daqueles de esquecer até a música que tá tocando. Quase não conversamos. A sintonia dos beijos e das carícias apontavam pra que buscássemos um lugar mais apropriado pra continuar a noite. Não precisei perguntar.. e ela também não respondeu, apenas sorriu...

Mas eu tava muito apertado de novo. Precisava ir pela última vez ao banheiro. Ela ia me esperar perto do caixa. Enquanto cruzava a pista a situação foi se tornando crítica ao ponto de eu achar que não seguraria até chegar ao banheiro. E se tivesse fila? Ah, eu faria no corredor mesmo. Engraçado é que quando o cérebro sabe que tu tá te dirigindo pra um banheiro, fica praticamente impossível segurar, como se o tempo limite fosse dado por uma ampulheta.

Consegui chegar ao banheiro, só um magrão na fila. Apura que eu tô apertado – falei. Ele foi rapidinho e saiu. Escorei a cabeça na parede, abri as calças e aaahhhhhhhhhh.... Quando a gente bebe, é mais legal fazer xixi assim, com a cabeça escorada na parede.

Só que não fez o barulhinho tradicional na água do vaso..

PQP!!! PQP!!! PQP!!! PQP!!!

Na hora senti um quentinho escorrendo pela perna esquerda. Olhei pra baixo e constatei que minha noite acabara de ir por água abaixo, ou melhor, perna abaixo. Uma imensa mancha escura contrastou com o claro do jeans. O que eu ia fazer? Como ia me apresentar à moça todo mijado? Não tinha como.. E pior.. se eu contasse o que tinha acontecido e ela não se importasse?

Não, não, não.. eu é que não ia passar por tamanho mico. Além de ter que sair do banheiro todo mijado e, inevitavelmente, ouvir piadinhas. Já abri a porta com cara de brabo. Ai que alguém se atrevesse a falar alguma coisa. Passei pela pista sério, firme, sentindo agora, que a calça estava gelada. Poucas situações são piores que essa. Na hora não conseguia lembrar de nenhuma outra.

A moça estava lá, perto do caixa. Me avistou de longe e percebeu que não estava indo ao encontro dela. Não sei o que pode ter pensado, mas fui direto pra saída. Não dei nem tchau, nem olhei. Saí e fui embora, adiando mais uma vez a comparação sugerida pelo sábio Maurício. Ele que nunca deve ter se mijado nas calças.

Thursday, March 23, 2006

Um dia especial pra um cara muito especial...

Décio tinha 8 anos quando teve o primeiro contato com um violão. Enquanto a maioria dos gurizinhos da sua idade esfolavam os joelhos jogando bola nas calçadas da Floresta ou na quadra da Florida, ele estava lá, isolado no seu quarto. Abraçado no seu violão e produzinho os primeiros acordes que o despertariam para um gosto ímpar pela música e o revelariam um talento sem igual.

Ao contrário da maioria do hobbys, Décio não abandonou jamais seu violão, e o gosto pela música e por fazer música só aumentou. Seu pai, o Seu Décio, que também era músico de talento, o alimentava com muito Beatles e tudo o que julgasse bom para lapidar os tímpanos debutantes do guri.

Quando eu o conheci, há uns 2 anos, ele já mostrava que tinha uma veia diferente pra coisa. E todos gostavam de ouvi-lo, fosse com a guitarra ou com o violão. Era ele chegar nos churras da galera e já ia um lá desligar o rádio e todos já se acomodavam à sua volta esperando o tom que ele ia dar. O legal de tudo é que ele nunca se mixava, a gente pedia e ele tocava. “Toca aquela, toca aquela outra..!” a gente pedia.

Durante esse tempo ele já passou por algumas bandas. Diz ele que nunca teve a pretensão de seguir uma carreira comercial, embora sempre que tocava o fazia com muita seriedade e dedicação, o que lhe rendia muitos aplausos e admiração. Assim ele nos cativou, e assim que ele sempre arrasta um de nós onde quer que vá tocar.

Ontem ele me ligou. Eu tava na frente do trampo do Pitoko, o esperando pra almoçar e ouvindo o Passado a Limpo, na Pop Rock. Aliás, um dos poucos programas que ainda dá pra se ouvir nessa rádio. Pois bem.. ele ligou..

- Ô cara, tudo bom?
- E aí locão, tudo bem!
- Ô cara, tu tá sentado? - daquele jeito bem pausado do Décio..
- Tô sim..
- Eu preciso te falar um negócio..
- Tá, fala!
- Ô cara.. o vice presidente do Inter... me convidou... (aqui eu pensei que o convite era pra assistir ao jogo nas cabines)
...pra tocar o hino do Inter e o hono do Rio Grande antes do jogo...


(instante de silêncio)

- PUUUUUUUUUTAAAAAQUEEEEOPARIIIIIIIIIIU BATMAN!
- Cara, não tô acreditando..
- Caraaaaaaalho cara, que afude!!! Como é que tu conseguiu isso?
- Um amigo meu blá blá blá conhece o vice presidente blá blá blá e eu to aindo hoje de tarde lá pra passar o som
- Bah, meu velho.. meus parabéns! blá blá blá..

O meu plano era de ir pra aula e pegar a chamada das 21:15. Só que, no meio da tarde ele me mandou uma msg dizendo que tocaria justamente às 21:15. Eu ia ser obrigado a gazear essa aula. Mas a das 19:30 não tinha como faltar. Entrei na aula e segurei até às oito e meia. Saí de fininho e me larguei voando pro Beira Rio. Tão logo entrei no estádio já ouvi um som de guitarra.

Era ele!

Subi alguns degraus na arquibancada e pude vê-lo. Ele tava ali na beira do gramado, ele e sua guitarra. Nos alto falantes de todo o estádio a melodia arrepiante do hino do Rio Grande. Era ele, era o Décio, diante de pelo menos 30 mil colorados, imprensa, funcionários e de todos que possuíam ouvidos. Ele caminhava leve no gramado enquanto tocava. Ao final do hino fez uma graça, deixando a guitarra no suporte e se abaixando pra fazer um solo de encerramento.

Quando terminou, o locutor do estádio anunciou:

- Agora Décio Jr. Vai tocar o hino do Sport Club Internacional!!!!

A galera já começou a vibrar. Ele tirou a camisa preta e revelou uma camiseta branca do Inter. Fez um sinal com os braços e levantou ainda mais a massa. E tocou o hino do Colorado. Eu arrepiei. Eu não conseguia acreditar que era ele, o Décio, que tava ali.

Fico imaginando o que representou esse momento pra ele. Com certeza nada paga. Um presente que ele e nós todos merecemos. Fiquei muito feliz por ele mesmo. O cara é o cara! Não conseguimos nos encontrar depois do jogo. Não vejo a hora de sentar com ele numa mesa de bar e saber, no tete a tete os pormenores de tudo.

Monday, March 20, 2006

A história de Júlio Caribe...

Júlio Caribe adorava dar uma volta de barco pelas águas da praia do Coqueirinho. Ele passava o dia todo na praia e, volta e meia, aceitava uma carona pra aventurar-se nas águas de Coqueirinho. Ia de uma ponta a outra, ria, passava por trás da Ilha do Padre e voltava. Geralmente dava mais umas voltas no mesmo barco nos dias seguintes e depois ficava um bom tempo na praia. Mesmo que os barcos que andasse ainda estivessem por ali. Mesmo que o passeio tivesse sido ótimo. Até que surgia um outro barquinho. Um novo barco enchia os olhos de Júlio e trazia as lembranças da face oculta da Ilha do Padre. E lá ia ele. Mais uns dias de aventuras e lá estava Júlio de volta à praia.

Não faltavam conselhos ao Júlio Caribe largar de vez aqueles barquinhos e se empenhar num projeto maior. Já que ele gostava tanto das maravilhas do mar, que desse jeito de navegar numa embarcação de maior porte. Aí sim sairia dos limites da quase que totalmente conhecida praia do Coqueirinho. Outros mares o esperavam. Quem sabe uma volta ao mundo.

Mas o Julio Caribe sabia que esses barcos grandes davam muito trabalho. Depois de estar em alto mar, teria que enfrentar a tempestade que surgisse. Isso o assustava muito. Mas a expectativa das maravilhas que viria a descobrir o faziam pensar com mais carinho no assunto.

Na verdade Júlio já havia navegado numa embarcação dessas. Ficou por um bom tempo no mar. Só que quando viu-se no limite entre perder-se no Atlântico e continuar sua vidinha na prainha, não quis arriscar. Passou um bom tempo até assimilar o arrependimento. E por um bom tempo nem quis mais saber das aventuras nos barquinhos, por mais charmosos e insinuantes que fossem.

Anos depois Júlio do Caribe voltou a se embrenhar nas curvas que costeavam a Ilha do Padre e andou em alguns barcos bem interessantes. Alguns deles até guardavam um projeto de se tornar barcos maiores, mas Júlio não queria mais passar por aquele momento de escolha novamente. Só iria se entregar ao oceano quando estivesse convicto desde o primeiro dia.

Então o Júlio Caribe observou um fato que o intrigou. Ele podia muito bem perambular pela orla de Coqueirinho, dar umas voltas nos barquinhos que havia por ali, até aí tudo bem. Mas caso ele avistasse um desses barcos maiores, empolgantes, que poderiam levá-lo a águas distantes, tudo complicava. Os pequenos barcos se colocavam à frente do Júlio Caribe e não o deixavam chegar perto da embarcação que lhe empolgara.

Numa bela noite na Praia do Coqueirinho teve uma festa entre os locais. Júlio foi molhar os pés na água e avistou, ante a luz que vinha da lua cheia no horizonte, a silhueta de um belo veleiro. Ficou encantado, deslumbrado, leve... Cada parte do barco que a luz revelava fazia os olhos de Júlio brilharem mais.

É esse, pensou!

Por dias Júlio do Caribe passou a admirar e se encantar mais e mais no belo veleiro e imaginar a longa, maravilhosa e empolgante viagem que faria nele.

Sem saber dos seus planos, Júlio pode chegar sem problemas ao veleiro. Chegou a dar umas voltas pela praia, porém, ainda não era hora de o barco partir. E ele teve que voltar à praia. Nos dias seguintes as manobras do veleiro produziam ondas que não deixavam Júlio se aproximar. E nos dias em que ele chegava, não partiam.

Foi aí que ficou evidente que Júlio Caribe queria algo mais que uma volta na praia ou pela Ilha do Padre. Ele queria ganhar o Oceano.

Foi aí que Júlio Caribe descobriu quão turbulentas podiam ficar as águas da Praia do Coqueirinho pela fúria de alguns pequenos barcos. Tentaram afogá-lo, tentaram puxá-lo pra cima de outros barcos, tentaram fazê-lo voltar à praia. E ele voltava. Assim foram os dias seguintes, as semanas seguintes...

Thursday, March 16, 2006

O boné amarelo...

Show é um negócio engraçado. Pensa só.. o Santana ontem, por exemplo. Analisando muito friamente, o que o cara faz, é mexer freneticamente os dedos da mão esquerda sobre as cordas de aço da guitarra enquando as vibra - com o auxílio de uma palheta – com a mão direita. Só!

É claro.. a combinação desses toques todos produz uma melodia intrigante de tão boa, que nenhum mortal como nós seria capaz de reproduzir. Muito menos, muito menos produzir. E o cara inventou aquilo! E toca do mesmo jeito, não erra nada, com a naturalidade de quem escova os dentes. O cara é o cara!

Mas aí eu penso.. por aqueles toques melodiosos dos dedos do Carlos Santana ele ganhou o mundo. Ele toca a guitarra, não canta, (tem um magrão que canta pra ele) e por esse seu trabalho, ganhou o mundo! Pessoas no mundo inteiro esperam uma visita do mexicano ao seu país, organizam seus horários, convidam amigos e pagam 80 reais pra assistir àquela exibição de talento.

Eu não conseguiria reunir 10 pessoas que pagassem 1 real pra me assistir trabalhando. Nem a pau!

Mas tem outra coisa engraçada em show. Encontrar pessoas conhecidas na multidão. Mais.. tem gente que surta se alguém consegue encontrá-lo de longe. Se o vir pela TV então.. capaz de ter um ataque cardíaco.

Aconteceu no show do U2 em São Paulo. Ninguém me contou, eu vi! Já tinham fechado a Hot Area e nós estávamos ali, comemorando por termos conseguido entrar e esperando o tempo passar. Como ali dentro não é atrolhado, podíamos ficar conversando na boa, sentar ou levantar a qualquer hora, ir ao banheiro tranqüilamente, enfim. Ao meu redor: duas patricinhas, uma delas de rosa e boné amarelo; Alice e Catherine, mãe e filha, as que me deram a bandeira do Brasil no final do show; um casal.. ele, o Carlos, bem magrinho, ela, Márcia, pesava umas três vezes o peso dele. Muito gigante! Daquelas que têm seios grandes, mas que a massa que tem abaixo ultrapassa, fazendo uma forma única, e muito alta. Daquelas que suam o cantinho da testa ao menor sinal de calor. Os dois e um amigo.

Entre os assuntos que discorriam, Alice advertia a filha Catherine sobre a conta do celular, que tinha dado muito alto, que era pra ela maneirar e tals. Foi ela fechar a boca, Márcia pediu o telefone emprestado, caso Alice não se importasse. Bah, não acreditei.. ela tinha acabado de reclamar da conta do telefone! Mas emprestou. Na maior cara de pau, olhou o número no seu telefone e ligou com o de Alice..

- Alôôôôôô!!!!?
Tiiiia? A Carla tá aí?
Não?
Tá, tudo bem. Ela tá no show?
à hããã.. tá, me dá o número então..
Tá.. oooito.. ã hã meia cinco.. tá.. tá.. obrigaaaada!

Desligou, e com a mesma cara de pau e naturalidade disse que só faria mais uma ligação. Ligou.

- Caaaaaaaaaarla!!!! Oooooooooooi!!!!
Eu to aqui na hot area!!!! Isso, aqui no palco..
Onde cê tá?
Na arquibancada? Ah tá.. no anel bem de cima
Camiseta preta.. cê não tá vendo?
Olha aqui.. bem em frente à caixa de som.. não, mais pro lado, peraí!

Nisso ela passou a mão no boné amarelo da patricinha, que ficou boquiaberta.

- Eu tô sacudindo um boné amarelo, tá vendo?
Aqui.. cê tá vendo? Tá vendo? Tá vendo?
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Amigaaaaaaaaaaaaaaaaaa AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

A cena foi das mais clássicas. A Márcia, com seu físico de cinturinha de kombi pulava, e tudo nela balançava. Sacudia o braço que parecia um salame daqueles que ficam pendurados com um cordão amarrado na volta, e gritava sem parar. Gritava muito! E a chamada correndo. Mas era tão engraçado que a Alice nem reclamou, todos riam muito, inclusive o Carlos, o namorado e a patricinha, a qual ela subtraíra o boné amarelo. Cada berro dela era ensurdecedor, e eu me deitava no chão de tanto rir. Foi clássico!

Mas Márcia queria roubar a cena mais uma vez. E conseguiu. Num show é comum, os caras colocam as gurias na garupa.Uma perna da moça de cada lado do pescoço e a nuca do rapaz no paraíso. Ela nas alturas, acima de todos. Braços erguidos e peitos estufados na camiseta. Coisa mais linda!

Ao ver aquela cena, Márcia não hesitou..

- Ah não, eu também quero!! – olhou pro namorado.

O silêncio se instaurou. Ninguém mais falava nada, só observavam a cara de pré falecido do Carlos. Cara de carro daqueles filmes americanos que são esmagados numa prensa. Mas o anjo da guarda de Carlos deu os ares..

- Aaaaai, amor.. tadinho, não vai poder, tá com o joelhinho machucado. – todos respiraram aliviados. E logo veio outra bomba...

- Aháááááá.. mas você não tááááááááá....!!!! – e apontou pro amigo.

- Te fudeu, magrão!!! – concluiu o Carlos.

Tuesday, March 14, 2006

Piscina de bolinhas...

Eu sempre digo que as pessoas mais felizes são aquelas que guardam um pouco da inocência de criança dentro de si. Isso num âmbito psicológico. Já no material diria que felizes plenos são os que não precisam de grandes posses ou dinheiro pra se divertir. Os que conseguem fazê-lo no simples.

Eis que um dos momentos mais divertidos que guardo - e acredito que muitos mais não hesitariam em fazer isso hoje – é a piscina de bolinhas que eu brincava ali no Iguatemi. E o melhor: era de grátis! Minha mãe, que nessa época ainda era Dona de Casa, depois que terminava os afazeres do lar levava eu e a minha irmã pra brincar na tal piscina.

Pra nós aquilo era o paraíso. Estar num ambiente isolado dos grandes, e criança tem essa rivalidade com os adultos, com o único propósito de brincar. Naquele momento não haveria nenhuma tormenta de estudo, de manter a roupa limpa, de não correr pra não se machucar.. nada!

Como se não bastasse nossa alegria de poder, de vez em quando, brincar na piscina de bolinhas do shopping, uma vez os caras se puxaram.. trouxeram o Parquinho da Turma da Mônica!!! Bah, nem era de se acreditar! Um parquinho inteiro, todo com massinhas de modelar (eu era craque em fazer esculturazinhas de massinha), folhas em branco e canetinhas, escorregadores, puffs com as caras do Cascão e do Cebolinha e o brinquedo mais perfeito que podiam nos apresentar: o Elefante!

Bah, o Elefante era sem explicação. Um enorme colchão inflável montado dentro da cabeça do Elefante verde da Turma da Mônica. Ali ficávamos pulando, dando cambalhotas, rolando de um lado pro outro... muito bom!

Hoje vejo ambições da vida assim, como querer mergulhar numa piscina de bolinhas particular. Mas assim como algumas crianças eram barradas por idade ou por tamanho, ou até por mães que simplesmente não deixavam brincar, alguns dos nossos ideais esbarram em adversidades que nossa parcela inocente não entende, e nos limita a olhar para aquele brinquedo de longe, mesmo sabendo que foi feito pra nós.

Até o dia em que o guarda dormir e eu invadir minha piscina de bolinhas à noite. Quando já for dia e todos perceberem minha alegria de criança e o envolvimento com o brinquedo, tenho certeza que ninguém vai querer nos afastar...

Monday, March 13, 2006

A grande questão..

Quem eu quero ou quem me quer???

Queria que fosse mútuo..

Wednesday, March 08, 2006

A minha alegria atravessou o mar...

Quarta-feira da semana que precedia o Carnaval. Eram quase duas da tarde quando eu iniciava mais uma entre tantas aprontadas. Sim, daquelas que só acontecem comigo e que me rendeu, pela amada Pi, o apelido de Corpo Fechado, vulgo Papaéu.

Meu vôo estava marcado para as 14:15h de quinta. Almocei com um brother na rodoviária de SP (estação Tietê do Metrô) e estava prestes a voltar pro Rio. Comprei a passagem de ônibus SP/RJ para as 14:20h. Poderia curtir o restante do dia e a manhã do dia seguinte na cidade maravilhosa. Mas não seria tão simples assim.

Cinco pras duas, uma amiga ligou. Ainda não tínhamos nos visto, e ela ficou indignada quando soube que eu estava indo embora. Queria que eu tomasse pelo menos um chopp com ela e as amigas. Lá fui eu.. cancelei a passagem e deixei o horário em aberto. No final da tarde me encontrei com elas na casa de uma amiga, a qual tinha me passado o endereço.

Conversamos um pouco ali e fomos tomar um chopp. Eu e mais umas 5 mulheres. Foi muito divertido, embora minha participação tenha se resumido a rir das besteiras que elas falavam, e que não eram poucas.

Eram quase dez da noite quando elas me largaram na estação do metrô pra eu ir pro Rio. Tava tudo certinho, era só eu ver o próximo horário de ônibus e ir.. ao que eu tive o seguinte raciocínio:

Eu ia passar a noite viajando, ia chegar no Rio com uma mala e uma mochila e não ia poder nem pegar uma praia, já que não teria onde deixar as bagagens até o início da tarde, quando sairia o vôo. Na hora me veio a idéia de curtir uma noite em SP mesmo. Deixaria as bagagens num guarda volumes e sairia pro Rio na manhã seguinte. Viajaria dormindo e chegaria quase na hora do vôo. Perfeito! Ou não...

Sem pestanejar deixei as tralhas no guarda volumes da estação e peguei um táxi até a Vila Olímpia, onde tinham uns barzinhos. Acabei ficando no Favela, que era o mais movimentado. Fiquei ali, degustando um chopp e saboreando um caldinho de feijão. Coisa mais boa! Às cinco da manhã fui embora. Teria que pegar um táxi até a estação mais próxima e dali, o metrô até a estação Tietê.

O garçom disse que eu poderia pegar um ônibus, em vez de táxi, já que passava um ali na frente e o ponto final era justamente na estação. Esperei um pouco e veio o tal ônibus. Entrei, paguei a passagem e... apaguei.

- Ô magrão, acorda! Final da linha! – me cutucou o cobrador.

Acordei apavorado, entrei na estação, comprei o bilhete do metrô, esperei.. embarquei. Quando abri os olhos eu estava quase no fim da linha do metrô. Tinha passado e muito a estação Tietê, que era a da rodoviária. Desci as escadas rolantes, subi do outro lado, peguei o metrô de volta e... dormi de novo! PQP!

Dessa vez acordei umas cinco estações depois. Lá fui eu.. tudo de novo. Desce escada rolante, sobe do outro lado.. embarca e... dorme! PQP!

Resumindo: eu dormi 6 (seis) vezes na porá do metrô. Acho que conheci São Paulo inteira dormindo. Até que na última, como eu tinha passado só duas estações, resolvi ir em pé. Se eu dormisse ia cair no chão. Finalmente consegui descer. Só que aí me deparei com outro problema. Fiquei quase duas horas naquela função vai-volta dormindo. Eram 7h da manhã, e um ônibus pro Rio demora umas 6h de viagem.

Consegui passagem pras 7:40h e comecei a fazer os cálculos.. mais seis horas dariam 13:40h na rodoviária. O vôo era às 14:15 do Galeão, certo que não daria tempo. Azar, fui assim mesmo. Como o esperado, o ônibus chegou na rodoviária do Rio exatamente às 13:40. Pulei pra dentro de um táxi e perguntei se o motora conseguia estar até às 14:15 no Galeão.

- Já estamos lá! – afirmou ele, convicto.

Às 14:13h cheguei no aeroporto e corri até o guichê da Tam. As pernas estavam bambas. Não sabia o que faria se perdesse o avião. A minha passagem era promocional e não aceitava trocas. A moça emitiu oi bilhete.. uuuuuuuufa!

14:40! O Vôo tinha atrasado. Bah, muita sorte mesmo!

E assim pude viajar, finalmente, tranqüilo.

O Carnaval...

Nessa mesma quinta, subimos de Porto Alegre pra Laguna, pro Carnaval. Chegamos lá na madruga e já demos início aos trabalhos. De leve.. só pra dar embalo pros próximos dias, que prometiam.

A rotina não mudava muito.. abastecíamos um ou dois isopores de ceva e gelo e íamos pra algum lugar. O cenário sim, mudava. No primeiro dia fomos até uma prainha que tem ali do lado.. Itapirubá. Muito astral, com mar dos dois lados. Fizemos campeonato de A Última Chance, acho que é um quadro do programa do Huck. Amarramos uma camiseta no cantinho da goleira e ali tentávamos acertara bola. O Rodrigo comandava o espetáculo fazendo uma narração muito engraçada.

Na casa também aconteciam coisas muito engraçadas, o que era de se esperar já que ali se instalavam 21 pessoas. Fizemos uma lista das atrocidades que a gente falava, depois eu trago pra cá. Na porta da geladeira colamos uma consumação de bar, que nós mesmos confeccionamos. Ali a gente marcava um x pra cada ceva que tomasse. Isso quando lembrasse. E era muito x. Lá pelas tantas alguém se indignou e escreveu: “Bibi demais”, e assim foi. Tudo era graça, tudo era motivo de riso.

Na avenida escolhíamos um lugar pra estacionar os isopores e curtíamos a bagunça geral da galera. O legal de Laguna é que todo mundo fala com todo mundo. Parece que as pessoas se desprendem de seus escudos e todos têm um só propósito que é a folia e a diversão.

O domingo, como sempre, foi marcado pelo fato de os homens se vestirem de mulher. A bagunça começa na casa, onde as gurias nos ajudam a escolher as roupas e a fazer a nossa maquiagem. A galera se liberta.. hahahahha.

Não me lembro se foi na sexta ou no sábado.. sei que um magrão inventou de estragar o jipe bem na frente da nossa casa. E o jipe era virado em som. Pra que... Fizemos a festa ali na frente da casa mesmo. O magrão, que na verdade era gordão, pulava como criança em cima do capô do jipe. O capô afundava e ele nem aí.

Os dias e as noites seguintes seguiram nesse embalo. Festa de dia e de noite.. muita, muita e muita ceva. Uma pena que acaba. Uma festa única de diversão sem igual. Uma casa ocupada só por amigos que faziam festa em qualquer lugar e a qualquer hora. Sem preço!

Que venha 2007!

Thursday, March 02, 2006

RaU2...

Sinceramente, eu achava que nada superaria o show dos Stones. Mesmo tendo passado a maior parte do tempo preocupado em conseguir manter o lugar onde estava e também a integridade física, o que não foi nada fácil.

No domingo eu estava perdido. Não sabia se ficava no Rio, se ia conhecer Cabo Frio ou ia pra São Paulo. Pela propaganda que me fizeram preferi conhecer Cabo Frio. Fiz muita festa e conheci uma das praias mais lindas e limpas que já vi.

Segunda-feira comecei a tomar rumo pra algo que eu imaginava ser grandioso, mas que ainda era muito incerto. Na rodoviária do Rio, na fila pra comprar a passagem, conheci dois novos amigos: a Cíntia e o Jéferson. Os dois tinham ido no show dos Stones e a Cíntia também ia no U2. Ficamos ali na rodoviária tomando um chopp enquanto aguardávamos os respectivos ônibus.

Já em São Paulo encontrei o Zé Gota na saída do show e pude perceber a sua empolgação. Mesmo assim não imaginava o que me esperava na noite seguinte. Ele fora no show da segunda e eu iria no de terça.

Acordei cedo, tomei um café e fui pro estádio. Aí aconteceu o primeiro contratempo. Eu ainda não tinha retirado o ingresso, e imaginava que pudesse fazer isso no Morumbi, local do show. Não podia, só no Pacaembu. O pior é que eu já estava na rua do Morumbi. Eram 10h da manhã. Tive que sair perguntando pra um monte de gente que ônibus eu pegava pra chegar no Pacaembu. Três horas e meia depois e quatro ônibus, consegui voltar ao Morumbi e encarar a quilométrica fila.

Não queria passar pelo mesmo sufoco do show dos Stones. Então, já que eu ficaria longe do palco nem ia me estressar. Nisso, fiquei sabendo que liberariam os 4 mil primeiros da fila pra Hot Area, um espaço reservado, grudado no palco. Antes de iniciarem as vendas especulava-se que os ingressos pra esse espaço seriam vendidos a mil reais.

Esqueci todo o sofrimento do show de sábado e novamente estava disposto a passar pelo que fosse pra entrar na tal Hot Area. Às 3h, quando abriram os portões meu pensamento não saía disso, de conseguir entrar ali. Avistei o gramado e saí correndo muito, tentando passar quem estava na frente, porque uns iam caminhando. Corri, corri, corri.. até que vi os seguranças pedindo pra gente se acalmar e fazendo sinal pra entrarmos na Hot Area. Assim que passei na catraca minhas pernas começaram a tremer. Muita gente gritava, uns choravam. Eu simplesmente não acreditava.

Corri pra frente do palco e me agarrei na grade. Olhava pro palco ali na minha frente, a menos de quatro metros. Loucura! O que eu teria feito pra merecer tamanho presente?

Olhei pra trás e vi que já tinham bloqueado as catracas, e a galera já começava a se acumular na grade que dividia a hot area. Tive muita sorte em ter conseguido entrar.

As horas passaram voando até começar o show. Como não estava atrolhado, pudemos esperar na boa, sentados, sem aquele tumulto todo.

O show...

Não há como eu descrever em algumas linhas a sensação de estar lá. Cada acorde, cada toque na bateria, cada palavra do Bono... tudo era de arrepiar. Um espetáculo sem igual, sem preço. Uma sensação de não haver lugar nenhum que se queira estar senão ali. Agradeço muito por esse momento, e sugiro que quem gosta de boa música um dia se disponha a assistir esse espetáculo. Maravilhoso!

Uma lembrança...

Antes de começar o show, conversei com os que estavam à minha volta, entre eles uma mãe com sua filha. Alice e Catherine, respectivamente. A Alice contou de todos os shows que já assistiu.. Paul McCartney, Rod Stewart, Stones, e por aí vai. Tinha consigo uma enorme bandeira do Brasil, que deixou pendurada na grade até o final do show. Sacudia a bandeira toda empolgada a cada música.

A todo momento a Alice reclamava por não venderem cerveja dentro do estádio. Combinei então de tomarmos uma gelada na saída. Assim que terminou saímos e compramos duas latas dos ambulantes ali de fora. A Catherine quis levar uma bandana do U2. Custava 1 real, e ela procurava se tinha trocado. Como eu tinha algumas moedas, saquei uma de 1 real e entreguei ao vendedor. Ao que Alice, sua mãe, interviu:

- Deixa eu retribuir com uma lembrança então. Toma esta bandeira! – e me ofereceu a enorme bandeira do Brasil.
- Que isso, Alice!? Não tenho como aceitar! Não posso aceitar mesmo!
- Por favor, você disse que vai a muitos shows. Leva consigo ela sempre. Vai ser uma lembrança desse shows e das suas amigas de São Paulo.
- Bah.. muito obrigado mesmo! Não sei como agradecer!
- Que isso, garoto, não precisa agradecer não!

Fui pra casa boquiaberto. Pelo show e pelo presente que ganhara. Coloquei a bandeira às costas e fui embora.

Mais uma vez agradeço por tamanha generosidade do Cara lá de cima.

Ainda tem o Carnaval...

Monday, February 20, 2006

Raulling Stones...

Saí de casa, na sexta, com o espírito programado pra muita aventura. Aventura às ganha! Pra variar, não tinha arrumado nada das minhas roupas. Deixei-as pra lavar na quinta à noite enquanto me arrumava pro super Pré Carnaval da galera, que foi muito, muito, muito bom! Todas marchinhas de carnaval e mais superfantástico e uni-duni-tê.

Na sexta de manhã soquei as roupas todas na mochila e fui comprar uma bolsa decente no Bourbon. Dali peguei um táxi e fui pro aeroporto.

Coisa bem boa essa de viajar de avião! O momento da decolagem é algo inexplicável. Aquela velocidade toda parece que não pára de aumentar, até que o bicho daquele tamanho ganha o ar.

Sem palavras o momento que passei por Bombinhas. Dava pra ver todas as praias bem direitinho.. Bombas, Bombinhas, Sepultura, Retiro dos Padres, Quatro Ilhas e a maravilhosa Praia da Tainha.

Cheguei no Rio e fui pro albergue tentando me achar com o mapinha que tinha ganho no aeroporto. Era um olho nas plaquinhas das ruas e outro no mapinha. Nem dava pra ver que eu tava perdido.. hehehhe. Dormi no ônibus e, quando acordei, imaginei estar na Atlântica. Dito e feito. Me levantei apavorado e puxei a cordinha. O motora parou e eu desci. A rua do albergue era paralela à Atlântica, duas quadras pra dentro. Mas óbvio que eu desci quase um quilômetro depois. Uma mala, uma mochila, 38 graus na moleira e 1km pela frente...

Finalmente cheguei no tal albergue. Stone of a Beach.. o nome era preza! Já tinha visto uns gringos pela rua, mas a recepção do troço eram só eles! Me dirigi ao balcão pra tentar ser atendido..

How spoipbr can tyudglkj help hkjdhk you?
QUÊ!!!!!???
Qual es kjgfku tu hkhd resiervahodb señor?
Moça, eu falo português!
Ah tá, desculpa!

Ela confirmou minha reserva e passei pro quarto. Cinco beliches, ou seja, dez camas. Só eu de brasileiro. Não cheguei a falar (ou tentar falar) com todos do quaro, mas tinham uma guria e um magrâo australianos e uma outra guria inglesa. Pra falar a verdade, acho que no albergue todo só tinha eu mesmo de brasileiro, nunca vi tanto gringo reunido.

Tomei um banho e fui dar uma conferida no local do show. Bah, só sair na rua do albergue, duas quadras da praia, e ver o palco ali na frente, muito perto mesmo. Ali na praia eu já comecei a observar os tipinhos que figurariam na minha aventura.. neguinho vendendo até a mãe! Um outro fez uma escultura na areia da boca dos Stones com o Mick Jagger sentado com uma guitarra no colo, muito fera.

Procurei uma choperia legal e fui comer alguma coisa. Meu propósito era de acordar às 6h da manhã e pegar um lugar o mais próximo possível da grade que separava da área vip. Já tinha gente acampada àquela hora! Fui no Manuel e Juaquim, uma choperia muito legal. Tomei uns (15 hehehe) chopp e voltei pro albergue. Achei uma cana vazia e capotei. Deixei o recepcionista avisado pra me acordar às 6h.

Conforme o combinado ele me acordou, mas me enrolei um pouco. Preparei a mochila, comprei 4 garrafinhas de água, pilhas pra máquina e fui pra praia. Cheguei por volta das 8:30h. O máximo que consegui chegar foi uns 5m da grade, mas bem na frente de onde chegaria o palco móvel. Acomodei os dois pés ao lado de uma barraca e atrás de uns guardassóis e ali fiquei.

Desafiando os limites da raça humana...

Ali eu já imaginava do que estava por vir.. e eu estava disposto a passar pelo sacrifício que fosse. Durante quase todo o tempo não pude mover os pés. Como eu tinha acordado sem fome, imaginei que não teria fome pelo resto do dia, não sei de onde eu tirei essa tese.. sei que às onze da manhã eu não agüentava mais o calor e a fome. Assim como levantei sem fome, na rua do albergue tabém não tinha sol, mas não era porque estava nublado, era pela sombra dos prédios. E então também não levei protetor solar. O sol eu tentava amenizar com a camiseta. Mas a fome não tinha como enganar.. a minha sorte foi que me enturmei com quatro magrões de Niterói, e eles levaram dois pacotes de pão de sanduíche, queijo e presunto. Quando começaram a comer me ofereceram e eu aceitei, claro.

O tempo parecia que não passava nunca. As pernas doíam, o sol ardia. Tínhamos que nos limitar a respirar. O corpo transpirava sem parar. Duas da tarde... Quanto mais o sol castigava, mais resistentes as pessoas ficavam. Ninguém desistia. No lugar que eu estava não conseguia ao menos sentar no chão. Nem trocar de posição. Horrível! Duas e meia.. Duas e quarenta.. Cada minuto valia por uma hora. E a área vip vaziazinha, a galera devia estar dormindo ainda.

Bom, não sei como agüentei, mas sei que agüentei. Às sete da noite,m quando a gaklera desarmou os guardassóis, me meti por baixo e me acomodei a uma fileira de pessoas da grade. A partir de então nem os braçoa eu podia mexer. O que estava pra baixo ficava pra baixo e o que estava pra cima, ficava pra cima. Começou um fortíssimo empurra-empurra. Todos querendo se aproiximar mais e mais da grade. Até então nada de xixi! E enm pelas horas seguintes. Eu usava a água apenas pra molhar a boca.

Na hora do show do Titãs o empurra-empurra fo mais violento. Algumas pessoas começaram a passar mal e tiveram que ser retiradas. Resisti bravamente.

Finalmente, a tão esperada hora. Os Stones entrariam no palco. Gritaria ensurdecedora. Se não me egano abriram com Jumping Jack Flash.. loucura! Aí foi um salve-se quem puder. Uns pulando, outros tentando manter-se em pé, outros passando mal.. loucura, loucura, loucura. Eu só tentava cuidar da minha mochia que estava com a máquina e me manter em pé, o que era muito difícil. Não tinha nem como abrir a mochila pra pegar a máquina, o nível de esmagamento era extremo.

Na hora que o palco começou a se mover ocorreu a catarse. Achei, sinceramente, que eu participaria da maior tragédia da história. Muita gente passou mal. Eu não trocava aquele momento por nada. Fiquei ali, a menos de dez metros daqueles monstros! Impagável, impagável. Não sei como, mas consegui tira a máquina da mochila e bati umas fotos, sem ver, só com o braço levantado.. nem seise vai sair alguma. Mas o mais importante estava ali, bem ali. Uma oportunidade que provavelmente jamais se repetirá.

Assim que o palco começou a voltar eu saí do tumulto, o que também foi tarefa arduíssima. Queria chegar na praia pra fazer xixi. Depois de uns 15 minutos cheguei. E quem disse que pude.. a praia lotada! Todo mundo dentro da água enlouquecido e pulando. Galera com prancha, com bóia.. Tive que voltar uns 800m até achar dois cara-dura mijando na frente da galera. Foi ali mesmo. Ninguém tava nem aí.. passou um negãozinho e fiz xixi em cima do pé dele. Achei que ele ia se invocar.. que nada, nem viu! Hahhahahaha

Acompanhei o show terminar lá de trás, pelo telão. Loucura! Muito bom mesmo! O Mick esbanja energia que não te deixa sentir cansado. Uma das melhores coisas que eu podia ter feito mpor mim nessa vida. É muito bom ter essa sensação de realização! Na verdade a ficha aind anão caiu!

E ainda tem o U2, amanhã.. aguardem!

Sunday, February 19, 2006

Drops...

To no ciberzinho do albergue, só posso ficar 20 min, que é de grátis..

Há muito pra falar sobre o show de ontem, ao mesmo tempo que para alguns momentos não há palavras pra descrever. Ver os coroas a menos de 10m não tem preço. Valeu todo o torrão do sol, todo o suor, todos os pisões no pé, todos os empurra-empurra, tudo. Por uym momento cheguei a pensar que faria parte de uma das maiores tragédias da humanidade.

Teve muita coisa engraçada. Depois entro num ciber com tempo livre e escrevo.

Muitas saudades de todos!

Wednesday, February 15, 2006

Cardíaco...

Não me considero hipocondríaco, muito pelo contrário. Eu já nem fico doente pra não ter que tomar remédio. Todo ano temos exame médico periódico aqui na Vivo, mas volta e meia eu mato um. Ninguém merece ficar sugando o sangue do cara.

Pois eis que há uns dois dias senti um “desconforto no peito”. Esse foi o termo médico usado pra umas fisgadinhas que eu senti. Foi bem fraquinho, só que como eu sou muito assustado, achei que tava infartando.

Num movimento leve como braço esquerdo pra trás, consegui amenizar a fisgadinha, mas o sentimento de estar tendo um ataque no coração já se abatia sobre mim. Em segundos todos os sonhos de um lar, uma família, filhos.. aquela gurizada ranhenta correndo no pátio, cachorro, viagens.. todas essas coisas começavam a se apagar.

Já podia me ver sendo levado por uma ambulância e tomando aqueles choques que fazem aparecer até o esqueleto do cara, tipo desenho animado.. tudo isso me passou pela cabeça em instantes. Até que caí na real.. pô, eu não sou gordão, bato uma bolinha toda semana, e tenho 28 anos. A vida não seria tão cruel assim comigo. Voltei a trabalhar. Dei umas apalpadas parecidas com exame de câncer de mama e voltei a trabalhar.

O problema é que o tal desconforto não passou. Fiquei dois dias sentindo essas fisgadinhas de leve e pensando todas aquelas coisas de novo. Vou ter que ir ao médico – pensei. Tenho um futuro promissor, não posso ficar a mercê de um ataque cardíaco repentino.

Ia ter que enfrentar o médico, estava decidido. O trajeto aqui da empresa até o hospital foi em contagem regressiva. Ia ser internado e logo passar por uma cirurgia, certo que ia. Como ia avisar os meus pais? E os shows dos Rolling Stones e do U2? E o carnaval??? O carnaval??? Que hora pra ter um problema no coração. Ia ter que fugir do hospital!

Bolei todo o plano de ação.. eles iam tirar toda a minha roupa e colocar aquele pijama verde-clarinho. Azar.. assim que a enfermeira se distraísse eu ia fugir. Ia sair correndo pelo corredor do hospital até conseguir voltar pra casa. Se quisessem que agendassem a data da cirurgia pra março, depois das festividades.

Cheguei no hospital. Meu coração palpitava. Talvez fossem suas últimas batidas. Não tive tempo nem de falar com a mãe, a bateria do telefone tava acabando. Celular é um ótimo consolo nessas horas. Parecia que todos me olhavam como um pré-operado. Tanto que cheguei na recepção e fiquei sem falar, queria que o atendente soubesse do meu problema. Respirei fundo e falei o que estava sentindo.

Fui encaminhado para um Clínico Geral. A agonia tomava conta de mim. E ninguém sabia que eu estava ali. Todos iam saber da tragédia de surpresa. Tentei me acalmar. Percebi que eram dois os clínicos que estavam atendendo: um médico e uma médica. Ele careca, com cabelos só dos lados e meio corcunda. Ela muito bonita, cabelo cor de cobre, usava óculos, seios salientes e devia ter uns 30 anos. Os predicados da doutora serviram pra amenizar minha angústia. Queria ser atendido por ela, não pelo careca corcunda. Se alguém fosse me apertar o peito, escutar meus batimentos, que fosse ela.

-Raul Vieira

Era eu! Era ela! A doutora que ia me atender! Num segundo todas as minhas preocupações com o coração deram vez a uma possível investida com a jovem doutora. Já imaginei ela me colocando numa maca e tirando minha camisa, alisando meu peito... sentindo aquele perfume e olhando para aquele batom vermelho encarnado nos lábios grossos... encostando o ouvido no meu peito..

- Meu nome é Aline, pode sentar – falou bem mais séria do que eu imaginava. – Então, Raul, o que tu estás sentindo?
- Ah.. desde ontem estou sentindo.. blá blá blá.. blá blá blá..

Nada de maca, nada de abrir camisa, nada de ouvidinho no peito! Só estetoscópio..

- Olha, Raul.. parece tudo ok, mas vamos fazer um eletro pra não ter dúvidas. Vou pedir pra enfermeira fazer teu eletro e te dar uma medicaçãozinha. Qualquer coisa tu volta aqui.
- Tá..

Fiquei numa salinha esperando até que veio a enfermeira com aquele monte de chupetinhas na mão. Ia ser eu e o Frankstein. A enfermeira não era em nada parecida com a Doutora Aline, não dava pra ter nenhuma segunda intenção. E essa sim, me colocou na maca. Me encheu daquelas chupetas e ligou o equipamento do eletro.

- Dá choque?
- Hahahahahaha, não.

Imprimiu o eletro e me levou pra salinha de medicação. Vários daquelas hastes metálicas pra soro e uns encostos de braço. Será que ia ser uma injeção? Ah não, injeção não! Dito e feito: injeção!

- Eu tenho medo de injeção!!!! – Anunciei.
- Ah é? Pois eu vou te aplicar uma injeção. – Sarcástica!
- Posso não olhar?
- Pode, claro.. fica pensando na vida.

Olhei pro outro lado e ela foi me apertando com aquelas borrachas de soro. Quando vi tinha uma garrafinha pendurada pingando um suquinho verde num caninho até a minha mão. Quase meia hora depois e começou a terminar o líquido, que eu nem sabia o que era. A enfermeira saiu da sala. Tinham mais duas mulheres na mesma situação que eu. Fiquei preocupado se podia acabar o líquido com a agulha fincada na minha mão. Talvez entrasse ar! E agora? Lembrei que num filme do McGiver um cara matou um desafeto aplicando-lhe uma injeção de ar. Eu ia me livrar de um ataque no coração e ia morrer por ar na veia. Precisava fazer alguma coisa. Pensei em arrancar aquela parafernalha toda. E nada de a enfermeira aparecer!

- Olha, o teu vai acabar! – Disse a senhora que estava na minha frente, prevendo o meu fim.
- Eu vi, mas a enfermeira não aparece.

De repente acabou mesmo todo o líquido do frasco e a mangueirinha começou a esvaziar. Cada centímetro que baixava o nível era desesperador. Segurei o esparadrapo, estava prestes a arrancar tudo! Ouva passos no corredor, mas nenhum era da enfermeira! Olhei pra duas senhoras, olhei pra mangueirinha.. quase vazia.. olhei pra porta..

- Oi! Já acabou?
- Já, tá acabando, tá acabando..
- Calma.. ele não desce todo..

Ela tirou a agulha e deixou o algodão. Levei o exame até a Doutora Aline e ela, como já tinha dito, não achou nada de errado com meu coração. Disse que deve ser algo muscular. De qualquer forma elogiou minha atitude de procurar auxílio médico. Disse pra nunca sentir desconforto no peito sem procurar um médico.

Foi só um susto, menos mal. Mas me fez sentir um monte de sensações e medos que não me ocorriam desde criança. E fez também perceber que nossa vida é tão frágil e tão forte, e que nosso coração passa por essas emoções fortes, mas que não superam as sentimentais.

Friday, February 10, 2006

Arrepio...

Diz que não se faz, mas acho hipocrisia.. eu analiso quase todos os meus relacionamentos, sejam os de amizade ou os de paixões. Faço uma espécie de gráficos e tabelas mentais na busca de evidenciar pontos que levem a uma maneira mais sensata de encontrar alguém que concilie afinidades, química e vontade de querer estar com alguém, e só com este alguém.

As afinidades já temos, cada um, as suas. Podemos mudar um pouco, vir a conhecer lugares, comidas e músicas antes não apresentados. Mas nada que seja tão significativo. A química só se conhece do jeito que aprendemos no primeiro grau: experimentando. Um corpo A reage (ou não) com um corpo B. A isso somam-se as afinidades, os momentos vividos antes desse, e a mística curiosidade do que ainda pode vir a acontecer. Se a reação resultar em uma explosão de sensações, aí está o primeiro passo pra se alcançar o seguinte: a vontade de querer estar só com este alguém.

Às vezes mudamos um pouco a ordem, e colocamos como premissa inicial não estar só com um alguém. Aí podem aparecer afinidades e química, mas vai ser bem mais difícil demover a premissa inicial, ainda mais quando ela for verificada com freqüência.

E quando a ordem é mudada fica difícil mesmo.. a premissa inicial pode até ser a de querer sim, estar só com um alguém, mas se não der espaço à química, por exemplo, tudo vai por água abaixo.

Isso porque ficamos com medo quando alguém abre seus sentimentos em relação a nós. A barreira natural que muitos de nós temos para com novas pessoas se reforça quando essas novas pessoas demonstram algum interesse. Embora eu perceba e saiba o quão arriscado é abrir os sentimentos antes de fechar as três premissas, prefiro assim: deixar claro que há interesse de minha parte. Não deixa de ser uma mudança na ordem, mas a dificuldade em contornar isso, a conquista dos sentimentos alheios até que se perca o medo, a luta contra si próprio, contra o próprio corpo e mente em controlar atitudes, em saber esperar.. isso tudo é o que alimenta mais a vontade de afirmar os três argumentos.

Por isso que considero importante deixar rolar as coisas nessa ordem: afinidades, química e vontade de querer estar só com este alguém que já confirmou os dois argumentos anteriores. Mas os três são fundamentais. É como uma mesa de três pernas. Se uma delas quebra, a mesa desaba. E sobre essa mesa é que, aos poucos, vai se construindo tudo o que vai sendo vivido, como um equilibrista que vai colocando taças de cristal, uma sobre a outra. É a fragilidade de toda relação que investiu nos três pontos fundamentais.

O mais engraçado é que depois que se concretizam esses pontos fundamentais, a parte que antes relutara em aceitar a revelação de sentimentos e interesses, recobra essas afirmações demonstrando uma incerteza e um querer, um medo de não sentir e apostar sozinho.

Quando um peito se abre aparecem muitas coisas lá guardadas. Os órgãos vitais gritam por algo que lhes instiguem a continuar vivos. Pulmões anseiam ofegar e um coração disparar. Por todo um corpo um sangue quer ferver, quando na retina de olhos brilhantes reflete a luz de uma união de formas de forma que se perceba e sinta que nada disso se sente sozinho.

Wednesday, February 08, 2006

Sim, eu sou muito atrapalhado...

Lá em casa, depois do Ano Novo, todo mundo se larga pra praia, menos o meu pai. E eu e a minha irmã, claro. Tá, mas aí vão dizer: “então é só a tua mãe”. Sim, lá de casa mesmo é só a mãe, mas vão também minhas outras irmãs e meus sobrinhos. E como eles vivem lá em casa, digo que todos lá de casa foram pra praia. Meu pai reluta ao máximo em ir porque tem medo de ladrão. Já entraram duas vezes lá em casa. É uma sensação horrível.. entrar em casa e ver tudo jogado pelo chão, tudo revirado. Marcas de pés nas paredes, grades entortadas, fechaduras arrombadas...

Meu pai, o Seu Antônio, sabe que eu quase não paro em casa, então ele acha que a casa fica muito vulnerável à ação dos arrombadores e prefere abrir mão de estar na praia com o resto da família. Fica de sentinela, de olho nos gatunos. Além de ficar atento a qualquer barulhinho estranho, ele vive fazendo benfeitorias em relação à segurança da nossa casa, que mais parece um forte. Ou pior: um presídio. Já escrevi aqui da saudade que eu tenho do tempo que nosso muro era de pedra, na altura do peito. Ficávamos horas e horas pendurados com a gurizada lá da rua conversando no muro. Hoje o velho murinho inofensivo de pedra deu lugar a grades e mais grades.

Mesmo assim Seu Antônio não cansa.. coloca mais uma corrente e um cadeado, uma tranca pelo lado de dentro, uma trava de segurança, uma lâmpada de presença.. e por aí vai. Fico imaginando o dia que vamos precisar de crachá pra entrar em casa.

Só que tem uma hora que não adianta. A saudade invade o coração turrão do Seu Antônio e ele começa a repensar na necessidade de ficar plantado noites a fio atento a possíveis investidas de malfeitores. “Tu abre o olho aí hein!” Quando ele fala isso eu já sei, ele vai pra praia.

Aí entra meu estabanamento...

Ele não para de me dar recomendações. É ração pros cachorros, água, regar as plantas, juntar a sujeira do pátio, não sair de casa sem fechar tudo, verificar a caixa de correspondências todos os dias, não deixar luzes acesas... metade do que ele fala eu não processo. Mas também.. são coisas que já estão meio intrínsecas ao senso de segurança e vida social. Mas tem uma coisa que eu não consigo.. cozinhar. Eu já não como em casa quando tem comida pronta, que dirá de quando eu tenha que preparar. O problema é que não estou conseguindo nem ao menos ferver o leite!

Hoje foi hilário. As primeiras horas da manhã me lembraram “Um Dia de Fúria”. Acordei meio atrasado e com muito sono. Levantei, olhei pra cama, olhei pro relógio e... tibum! Cama de novo! Tomei um banho rápido pra tentar me acordar e me vesti. Como não tinha café passado nem me estressei em esquentar o leite. Decidi que não estava tão atrasado assim e resolvi que ia parar numa padaria pra tomar café. Quando saí pra porta que dá pro pátio.. tuuuum!!! Shlap shlap... o Duque pulou em cima de mim e começou a me lamber. Voltei e troquei a calça e a camiseta que agora estavam com aquela típica marca de pata de cachorro. Abri novamente a porta, agora com mais cuidado e entrei no carro. Saí com aquele propósito de passar na padaria. Achei uma perto do trabalho.

- Oi.. um café com leite e uma torrada!
- Já te levo o café ali, só que não temos nada de salgado. O falecido ainda não chegou com os salgados. – a mulher já tava falando até do ex-marido.
- Tá, tudo bem, pode ser só o café.

Fiquei ali esperando.. esperando.. esperando. Até que ela disse que a menina tinha ido buscar pão e ia fazer a torrada. Mais uns cinco minutos e, finalmente ela veio com o café e a torrada.

Foi eu colocar a xícara na boca e tocou o telefone. Meu chefe! Bah, chefe ligando a essa hora e eu atrasado não é bom sinal. Era pra dizer que a casa ia ficar sozinha e que todos iam sair, que eu chegasse rápido. Pensei em deixar tudo ali, mas ia ser um desperdício grande. Perguntei se a mulher tinha um copo descartável e embrulhei o restante da torrada. Ela buscou o copo com tampinha e saí.

Quando cheguei no carro tinha um agente da área azul me caneteando.

- Ô cara! Tu já anotou???
- Tu vai sair agora?
- Vou!
- Tá, vai.. mas da próxima vez coloca o bilhete!
- Tá, pode deixar! Desculpa!

Entrei no carro e arranquei, cuidando pra não virar aquele café quase fervendo em cima do banco. Já tava até vendo o desastre.. telefone, mochila, ia molhar tudo! Fui dirigindo rápido e com cuidado.. um olho no trânsito e outro no copo. Uma hora o animal do carro da frente freia de sopetão e eu quase bato, daí sim! “Por que tu bateste?” iam perguntar. “Porque eu tava cuidando o café!” eu ia ter que responder.

Mas não aconteceu nada, graças a Deus, e cheguei com o copinho de café intacto, mochila nas costas, pão embrulhado na outra mão, molho de chaves entre os dedos, uma conta do cartão do pai na boca, telefone também entre os dedos, um óculos de sol na cabeça e o óculos de grau nos olhos. Dei oi pro chefe, que não deve ter entendido nada, subi pra minha sala e tomei, enfim, meu café tranqüilamente.

Monday, February 06, 2006

No Stress – No Preconceito...

Além do Pica, meu cunhado, tenho um outro amigo dono de pastelaria, o Tio Ale. O tio é só apelido, é um gurizão. Mas as gurias do Falcatruas têm essa mania de apelidar os guris inserindo um “tio” na abreviação dos seus nomes: Tio Rô, Tio Vini, Tio Ale... sem que eles tenham que ser, necessariamente, tios.

O nome da pastelaria era Tri Pastel, só que o Tio Ale achava que o nome de pastel afugentava quem quisesse apenas tomar uma cerveja, sem ter que comer. Além do que, pastel lembra fritura, e ninguém gosta de ficar com cheiro de fritura. Então o nome da pastelaria foi mudado pra Tri Bar. Como a gente já tinha apelidado o estabelecimento de Tripa, assim ficou, pra nós. Tripa.

Agora quem andasse perdido ali pela Goethe, em busca de um bar com uma gelada, sem que isso sugerisse comer um pastel de tomates secos ou strogonoff e sem ficar com cheiro de fritura, ali estava o Tri Bar, ou, pra nós, o Tripa.

Numa dessas noites de calor intenso eu tava no Tripa saboreando uma Boehmia com uns amigos e analisando os tipos que perambulavam pela movimentada Goethe. Nada perto da Lima e Silva, mas bem que ali na Goethe perambulam uns tipos muito estranhos. É o tio que vende rosas que tem a cara que parece aquelas máscaras de um dos presidentes americanos no filme Caçadores de Emoção, outro tiozinho todo torto que vende bilhetes de loteria com um casaco de lã, não importa a temperatura que faça, um casal de doidos que corre todas as noites de madrugada. Correr na volta do Parcão tudo bem, mas todas as noites, às 2h da manhã é bem estranho.

E tem também o anti-Cristo, um desses mendigos maltrapilhos com cabelos e barba grandes e aspecto de bastante sujo. Vestia uma camiseta No Stress preta já bem desbotada. Por vezes fico imaginando pegar uma criatura dessas, dar um banho e colocar uma roupa limpa. Garanto que algum poderia andar no nosso meio tranqüilamente.

E não foi que alguém teve essa idéia, só que sem a parte do banho... um magrão que tava ali no Tripa numa roda de amigos chamou o mendigo, que logo depois seria apelidado por eles de anti-Cristo. Foi só ele se aproximar da entrada do bar que o segurança já o barrou. Deve ter pensado que o mendigo ia entrar no bar pra pedir dinheiro pros clientes. Aí o tal magrão se levantou e foi falar com o segurança, disse que o mendigo era seu amigo e que estava o convidando pra tomar uma cerveja.

Meio que a contra gosto, o segurança permitiu que ele entrasse. O mendigo sentou-se à mesa com aquela galera, trouxeram-lhe um copo e serviram cerveja bem gelada. Brindaram e ele bebeu com gosto. Tava bem à vontade, até batia com a mão na perna no ritmo da música que tava tocando.

Não tardou muito, até que ocorreu a indisposição. O Tio Ale foi pessoalmente até a mesa e pediu que, se quisessem a companhia do mendigo, que colocassem a mesa no lado de fora do bar, quase na calçada. Sem cerimônia o grupo todo levantou-se e se instalaram na parte de fora, na grama. E o mendigo junto. Brindaram novamente e e beberam todos, não deixando que nada atrapalhasse a animação do grupo, que era grande.

- Que afudê! – foi só o que comentei.

Ficamos mais um tempo ali e fomos embora. Quando fui pagar pro Tio Ale, no caixa, ele já saiu se defendendo...

- Legal a atitude do cara, ali, só que ele podia ter levado o mendigo pra casa dele e ter dado uma cerveja. Tu não acha?
- Éeea... – concordei meio que desconcordando, com a cabeça inclinada.
- Pô, ninguém é obrigado a aturar o cara fedendo ali do seu lado.
- Pois é.. – na verdade eu não queria discutir aquilo.

Paguei a conta e saí. Achei a atitude dele meio preconceituosa, apesar de o argumento dele ser razoável. Se bem que eu não tinha sentido o tal fedor que ele se referia. Mas o preconceito é assim, uma breve leitura visual nos faz criar argumentos que, na maioria das vezes, são falhos.

Monday, January 30, 2006

Momento impagável...

Tava tomando uma Bohemia no Paradouro Nacional, em Atlântida, quando cheguei à conclusão de que não posso viver sem óculos de sol. O meu Ray-Ban quebrou e o Mormaii de 10 pila que eu comprei em Atlântida Sul, esqueci em Porto. Vi passando uma tiazinha com aquele monte de óculos cravados num isopor.

Levantei o braço e chamei a tia.

- Oi, é tudo o mesmo preço ou varia?
- Varia, moço.. esses aqui são 10, esses aqui 15 e esse daqui 25.. ele é especial.
- Hum.. sei. Esse daqui é 10?
- É, esse daí é 10.
- Legal esse daqui.
- É, é muito bonito.. tem saído bastante desse – sempre o mesmo papo..
- A senhora tem um espelho?
- Ah, desculpa.. tá aqui ó.
- Gostei, vou ficar com ele. Quer um gole? – ofereci o copo da cerveja enquanto eu pegava o dinheiro.
- Ah eu quero um golinho. – tomou com gosto aquele gole.
- Tá bem geladinha né?
- Tá, bem gelada..
- É Bohemia.
- Hum.. não conhecia. Muito boa.
- Pode tomar mais.. – servi mais no copo.
- Ah, obrigado seu moço, vou aceitar.
- Não precisa me chamar de “seu”, meu nome é Raul.
- Ah tá, o meu é Sandra. Tu és de Porto Alegre?
- Sou sim, e a senhora?
- Eu moro lá também, mas sou dE Bagé.
- Ah legal.. terra de gaudério mesmo.

E assim fomos passando o tempo. Ela falando das vendas, da filha, do patrão, do calor, enfim.. um monte de assuntos que deve ter acumulado por passar o dia inteiro perambulando na orla com aqueles óculos. Fui um bom ouvinte, creio eu. Até que ela se soltou mais e disse que gostava de ir a bailões no centro. Conversamos mais um pouquinho e ela enfim se foi. Saiu dizendo:

- Brigado, moço! Muito boa essa Booo.. Bohemia né?
- É. Tchau.. sucesso nas vendas!
- Brigado, moço!

A cerveja desceu até melhor depois daquela prosa e dos óculos. Uma semana sozinho nos faz ficar mais receptivos a essas pessoas que geralmente não conversamos.

Volto a Porto um pouco corado do sol, renovado pela paisagem da sacada do hotel e pelo incessante barulho do mar, convicto de que seria interessante passar umas duas semanas a fio numa praia – não a trabalho – eu ia ficar tri perdido se fosse morar em outra cidade, com muita saudade, e um pouco mais calejado...

Thursday, January 26, 2006

Quem precisa de férias???

Estava eu lá, bem quieto no meu canto quando o Seu Velasco, o nosso chefe, entrou na sala. Passei a vista legeiramente sobre os aplicativos pra ver se não tinha nada “não profissional” aberto. Ainda bem que a maioria dos contatos ativos do msn estavam “em horário de almoço”.

Depois pensei.. “bah, ele vai reclamar do celular, ou do horário..” Eu sempre acho que chefe só vem falar com a gente pra detonar. Isso que nunca tive problemas com chefes, sempre foram muito profissionais.

Pois bem..

- Raul, tudo bem, cara? – Ele sempre fala o nome e pergunta se está tudo bem. Pode falar 15 vezes contigo que vai sempre perguntar.
- Tudo bem..
- Cara, como é que tu tá pra semana que vem?
- Como assim? Tô aí..
- É que o pessoal tá de férias, outro tá de curso.. e eu queria ver se tu podia ficar no litoral semana que vem.

Nisso brotou uma nuvem de idéia na minha cabeça: hotel legal, café da manhã, cama arrumada todos os dias, praia, trampo até às 17h, sol até às 20h, biquínis...

- Bah, sem problema!
- É mesmo, posso avisar ao pessoal que tu vai ficar lá então?
- Pode sim, claro!

Tratei de fazer a reserva no hotel que o meu colega tinha dito que era legal. E é!

Um hotelzão, na beira da praia. A sacada do meu quarto fica de frente pro mar. Quase dentro do mar, dá pra dizer. A piscina é pouca coisa maior que a minha casa. E assim eu tô instalado. Ruim né?

Pois é, mas nem tudo é tão bom assim. O café é bem sortido, mas não é o bicho. Tem aqueles presuntos falsificados sabem? Apresuntado, acho que é o nome. Mas e quem quer saber de presunto?

O mais legal de tudo é ficar torpedeando a galera que tá trampando na cidade. Hahahahaha ontem de manhã mandei uma assim: “Que saco.. esqueci a porta da sacada aberta. Às 7h a claridade do sol nascendo e o barulho do mar não me deixaram mais dormir..” Mas que baita sacanagem!!!

Já falei que eu leio tudo? Sim, desde bula de remédio até rótulo de pepino em conserva. Adoro mesmo são os cartazes e placas escritos à mão. Sempre tem uns erros engraçados. Aí entrei no elevador e me deparei com um assim:

“Garagem coberta.
Monitorizada 24hrs.
Informações na lojinha.
Com cimone ou bigode.”

Monitorizada? Fala sério! Monitorada seria tão mais simples. O “hrs” passa.. embora apenas um “h” resolvesse. Mas o cimone com “c” e “bigode!” hahahhahahahahhahahahahahahahha

Tem um outro porém que nada me tira da cabeça que é uma conspiração contra a minha pessoa. Pra entrar no salão do café tem que apresentar um tiquetezinho que a gente ganha quando dá entrada no hotel. Um tiquetezinho azul. “Vale 1 café”, tá escrito. Aí eu desço todos os dias até o salão e me dou conta que não peguei o tal ticket. Todos os dias!

Assim vou me divertindo, como presunto falsificado, o cartaz da cimone e do bogode e o ticket azul do café.

Abração a todos e até semana que vem, devidamente bronzeado.

Monday, January 23, 2006

Curva da Morte...

Gostamos muito de classificar as coisas. Só que às vezes faltam palavras pra definir certas coisas. Participar do Curva da Morte é uma delas. Podemos classificar os bons momentos da nossa vida como simplesmente bons, ótimos, maravilhosos, mágicos e os melhores momentos. O Curva é, certamente, um desses melhores momentos.

O Curva é um evento que acontece duas vezes por ano em Teutônia, uma cidade que fica a uns 100km daqui. Quem organiza são uns amigos do Décio, inclusive um ex-chefe dele, o Metz, figura impagável.

O lugar também merece um destaque especial: um barzinho desses de beira de estrada, com mesas e bancos compridos de madeira, tudo muito rústico e simples. Simples, uma boa palavra pra definir o lugar e as pessoas que participam. A família que cuida do bar é uma alemoada.. os cabelos parecem barba de milho, e falam em alemão entre eles.

O propósito do Curva é uma reunião de amigos para uma noite de rock n’ roll. Assim, com sobrenome mesmo. Embora a afinidade entre o pessoal seja muito grande, é cada um de uma cidade. Uns de Teutônia mesmo, outros de Lajeado, Estrela, e outras cidades da volta.

Enquanto o pessoal do bar prepara a janta os guris montam a banda num palco improvisado. Legal ver o olhar atento da gringaiada pros instrumentos.. guitarra, amplificadores, bateria.. depois de tudo montado, a janta...

A janta é outra coisa bem difícil de definir. Tudo é muito bom.. massa caseira bem amarelinha, galinha caipira, maionese feita com os ovos dessa galinha, as saladas bem novinhas, uma costelinha de porco sem explicação, troço de louco.

Enquanto nos deliciávamos com aquelas maravilhas um tiozinho dava uma canja num acordeon. Foi o único momento que se fugiu o rock. Mas muito bom. Depois rolou só rock mesmo. Só clássico, um melhor que o outro, até quase de manhã.

E nesse evento espetacular cada um que está ali foi escolhido a dedo. Talvez muita gente não tenha entendido quando eu falei que em vez de ir pra praia. Tinha o aniversário da Ro no Cozumel e o aniversário da minha maninha em Torres. Mas o Curva é o Curva, e eu espero sempre poder participar daquilo.

Impagável!

Valeu, grande amigo Décio!

Thursday, January 19, 2006

As malditas cangas...

Não bastasse aquela mania ridícula de amarrar moleton na cintura no inverno, agora as gurias inventam essa de andar com canga pra cima e pra baixo. Inventam não, isso só pode ser criação de algum estilista sem idéia e puxa-saco de alguma gordinha que não queria mostrar o excesso quando levantasse da areia. No mínimo um dia a moça levantou da areia com a bunda parecendo um croquete gigante e percebeu os olhares malévolos e caçoantes dos homens barrigudos à volta. Porque de barriga de homem ninguém tira sarro. Se tira é algum amigo, ao que o barrigudo recebe com o devido carinho de amigo e até ri.

As mulheres não. Elas têm esse negócio da disputa pelas melhores formas. Ou menos piores, em alguns casos. Elas sabem que o homem sempre vai olhar quando elas levantam, não importa que sejam gordinhas ou magras demais. O homem sempre vai olhar. Uma mulher em vias de se levantar da areia é motivo de atenção geral na praia. Podem ver, até os gurizinhos que estão brincando de pazinha param pra ver aquela tia se levantando pra entrar no mar ou buscar um milho.

Só que essas tais de cangas estragaram tudo. A mulher já levanta se enroscando naquele pano colorido e sacudindo areia em todo mundo na volta. Enrolam uma parte na bunda e outra na barriga. Algumas chegam a puxar até o ombro, aí sim não sobra nada pra ver. E na mesma habilidade e desrtreza com que se levantam, chegam até a cadeira ou ao espaço que estavam e tiram o trapo maldito. Ninguém viu! Aliás.. se alguém viu foram os fotógrafos do Correio ou do Diário Gaúcho. Só eles conseguem ver! Sem contar a posição que elas ficavam pra enrolar a esteira.. seguravam da pontinha, num exercício maravilhoso de alongamento e iam enrolando. Nada daquela sacudida de areia sem graça da canga.

Bom era quando eu era criança. As mulheres carregavam esteira. De palha, compradas nos Artesanatos da avenida. Praia geralmente só tem uma via chamada de avenida. A maioria dos veranistas não sabe nem o nome, só sabe que é avenida. E só quem tinha esteira era a mãe, as filhas geralmente ficavam em cadeiras de praia ou num cantinho da esteira da mãe enquanto esta se ausentava. Esteira e guarda-sol, a alegria dos marmanjos barrigudos. O problema é que nessa época eu não era um marmanjo barrigudo. Era apenas um desses gurizinhos que bricava de pazinha. Até olhava pra alguma tia que se levantava, mas sem saber o motivo, era só porque todo mundo tava olhando mesmo.

Dia desses vi uma saudosista da esteira. Também, deve ter feito um rancho no Artesanato da avenida. Em tempo: lá em Quintão chama-se Artesanato São João. Chegou na praia com um guarda-sol de pano, verde com estampa de peixinhos, desses que só se compram em artesanato mesmo. Hoje em dia a maioria é promocional de empresas de telefonia. Bom.. guarda-sol de pano, chapéu de palha, bolsa de saco de trigo com alça de bambu, mateira de couro e.. a esteira, óbvio! Soltou o nozinho e.. flap, a esteira rolou e se estendeu sobre a areia.

Outro grande problema da canga é quando a mulher se deita sobre ela. Como geralmente é confeccionada em tecido fino, o ar embolsa embaixo, ficando uns gomos altos que fazem a gente confndir com as curvas da moça. Um saco! A esteira não, a esteira fica bem retinha!

Mas nem por isso as curvas da moça estavam à mostra. Uma camiseta e um shortinho de brim escondiam o biquíni. Mas logo logo ela teria de tirar.. Nem dei ouvido aos convites de jogar frescobol com os guris. Fiquei bem sentado, abri uma latinha bem gelada de Polar e esperei... Ela armou o guarda-sol perto da esteira, largou a bolsa e a mateira ali do lado, olhou pro mar e começou.
Tirou o chapéu de palha e sacudiu os cabelos. Não me pergunte o porquê.. o cabelo ficou igualzinho. Mas sei lá.. mulher tem essa mania também de sempre sacudir os cabelos quando tira o chapéu ou boné. Cruzou os baços na cintura e tirou a camiseta. Um piercing! Sacudiu mais uma vez os cabelos.. Era uma bela mulher. Não tinha mesmo por que se esconder em uma maldita canga. Só faltava o shortinho de brim.

Enfim, depois de adulto eu veria uma beldade expor suas maravilhosas curvas ali, bem pertinho, numa esteira! Uma esteira retinha, sem nenhum gominho de vento embolsado, sem que voasse areia em mim quando ela se levantasse. Comecei a imaginar, no pequeno intervalo entre tirar a camiseta e o shortinho, como seria a parte de baixo do biquíni. Se seria grande ou bem pequenininho.. se seria da mesma cor da parte de cima. Mil coisas, imaginei.. minha latinha de Polar já devia estar quente a huma hora dessas. Botei os olhos na latinha, bebi um gole já meio quente e voltei a admirar a moç...a, PQP!!!

Mais que depressa, enquanto dobrava os joelhinhos pra se deitar, sacou da bolsa de pano uma...

Maldita canga, colocou sobre a esteira e se deitou. Só depois foi tirar o shortinho, só depois que o vento já tinha embolsado.

Malditas cangas!

Minhas fotos no